Lucio Paiva Flores, 66

Terena

Lúcio Paiva Flores, Terena, tinha 66 anos, nasceu em 22 de Maio de 1954, na Aldeia Jaguapiru, na Reserva Indígena de Dourados, Mato Grosso do Sul (MS). No último domingo (10/01/2021), infelizmente, veio a falecer em decorrência das complicações advindas da Covid-19. Importante liderança não só entre os Terena e demais povos do MS, bem como para o movimento indígena em escala nacional, trabalhava há cinco anos na Assessoria do Controle Social da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) – desse modo, atualmente, morava e trabalhava em Brasília.

Lúcio Flores, era graduado em Ciências Sociais, mestre em Ciência das Religiões, escritor, teólogo (pastor) e com larga experiência em Serviço Social. Autor do livro “Adoradores do Sol: reflexões sobre a religiosidade indígena”. Foi um grande defensor não apenas da saúde indígena, bem como da biodiversidade da fauna e flora nativas do território brasileiro, travando uma luta contra biopirataria, sobretudo, na região da Amazônia. Lutou pela inserção dos povos indígenas nas universidades públicas e, para além de tudo disso, tinha um exímio conhecimento sobre várias plantas medicinais utilizadas pelos povos indígenas amazônicos. Por muitos anos foi liderança indígena e política pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e representou, em várias ocasiões, o Brasil e os povos indígenas na Organização das Nações Unidas (ONU), sendo reconhecido pelo movimento indígena nacional como um diplomata nato, sempre sereno e comprometido com as pautas da luta indígena.

Era conhecido carinhosamente como “seu Lucio Terena” e deixou um grande legado para o Brasil e para a luta indígena tendo colaborado ativamente com a discussão e a construção de diversas políticas públicas etnicamente diferenciadas, tais como a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI) e a Política Nacional de Saúde Indígena. Atuou em diversas frentes de mediação de conflitos e fez parte da assessoria do Departamento Etnoambiental da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia (COIAB) e coordenou o Centro Amazônico de Formação Indígena (CAFI).

Seu Lucio Terena era casado com dona Matilde Madicai (Kurâ-Baikari) com quem teve um filho, Lucio Yeruá. Em seu rede, Lucas Yeruá, relembra a difícil perda de seu avô (pai de seu Lúcio): “Quando ele [avô] se foi, meu mundo caiu pela primeira vez, senti a dor desse mundo, mas com todos os ensinamentos dele e com força de todos me fortaleci e segui em frente”. Em seguida, também traduziu, em poucos e belas palavras, todo o sentimento que o Brasil indígena e indigenista expressou sobre seu Lúcio Flores: “ele era respeitado por todos os lugares e por todas as etnias aonde ia, sempre existia uma pessoa que o conhecia e sabia da história dele. Sempre  muito confiante de tudo e de si, via ele como uma inspiração, sempre contando histórias de viagens e reuniões, pelo Brasil e mundo afora. Sei muito bem o tipo de homem que ele era, uma liderança indígena, um professor, um pastor e um belo pai…”

Antes do segundo casamento, seu Lucio Flores foi casado com dona Maria Eva Moreira, com quem teve duas filhas Juliene Paiva Flores e Luciene Flores. Foi mais ou menos nessa época que ele também se converteu ao presbiterianismo e viu sua trajetória alçar voos que até aquele momento não imaginava. Nas redes sociais, Juliene ressalta o orgulho de ser filha de Lucio Flores e sublinha: “Meu pai sempre foi respeitado pela sua liderança e articulação indígena.”

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e estatística (IBGE), o estado do Mato Grosso do Sul abriga a segunda maior população indígenas do país. O site do Instituto Sociambiental (ISA) afirma que a população Terena é bastante numerosa:

“Com uma população estimada em 16 mil pessoas em 2001, os Terena, povo de língua Aruák, vivem atualmente em um território descontínuo, fragmentado em pequenas ‘ilhas’ cercadas por fazendas e espalhadas por sete municípios sul-matogrossenses: Miranda, Aquidauana, Anastácio, Dois Irmãos do Buriti, Sidrolândia, Nioaque e Rochedo. Também há famílias terena vivendo em Porto Murtinho (na TI Kadiweu), Dourados (TI Guarani) e no estado de São Paulo (TI Araribá). […] Os Terena, por contarem com uma população bastante numerosa e manterem um contato intenso com a população regional, são o povo indígena cuja presença no estado se revela de forma mais explícita, seja através das mulheres vendedoras nas ruas de Campo Grande ou das legiões de cortadores de cana-de-açúcar que periodicamente se deslocam às destilarias para changa, o trabalho temporário nas fazendas e usinas de açúcar e álcool.”

Graziele Acçolini, etnóloga especialista na temática do povo Terena, registrou em um artigo que as religiões cristãs são predominantes na região. Sobretudo a religião protestante, em vertente pentecostal, possui importância notável no universo simbólico e religioso dos Terena, e se tornou elemento integrante daquela sociedade.

 

Lucas Yeruá, filho de seu Lúcio Terena, registrou:

 

Com todos esses anos de vida mesmo que pouco, sempre pensei que teria essas duas pessoas, esses dois professores, esses dois orgulhos, na minha vida.

Mas tudo tem um começo, meio e fim. Dedico está mensagem à esses dois melhores pais que tive, eles me ensinaram a andar, conversar e a viver, mas o melhor de tudo, me orgulharam. Eu sei que posso não ter sido o melhor Neto e melhor filho mas esses dois me fizeram passar por melhores momentos da minha vida.

Primeiramente meu vô que desde antes de eu nascer, já queria me dar tudo de bom, cuidava de mim com todas as forças. Me ensinava sobre a história de nosso povo mesmo que as vezes achando chato eu sempre escutava com o maior respeito e atenção, ele tinha um respeito muito grande pela nossa comunidade. Levávamos para lugares incríveis para que pudesse aproveitar e retribuir tudo que ele nos deu. Quando ele se foi, meu mundo caiu pela primeira vez, senti a dor desse mundo, mas com todos os ensinamentos dele e com força de todos me fortaleci e segui em frente.

Com o passar do tempo meu pai se tornou o pilar da família, era nele que depositavamos todos as nossas forças, escolhas e confianças, ele era respeitado por todos os lugares e por todas as etnias onde ia, sempre existia uma pessoa que conhecia ele e a história dele, sempre confiante de tudo e de si, via ele como uma inspiração, sempre contando histórias de viajens e reuniões, pelo Brasil e mundo afora. Sei muito bem o tipo de homem que ele era, uma liderança indígena, um professor, um pastor e um belo pai, que mesmo nos desentendo as vezes nunca nos separávamos, como ele mesmo dizia “somos amigos” e essa amizade estará comigo para o resto da vida.

Sei que tenho uma responsabilidade enorme por ser filho dele, em todos os lugares do Brasil ele tinha uma história, mas aprendi várias coisas com ele, o resto terei que aprender com o passar do tempo, tenham paciência ainda tenho 17 anos não quero ocupar nem substituir o lugar dele vou conquistar o meu com ajuda desses dois pilares da família

Mas hoje tenho que cuidar de quem está comigo e precisa da minha ajuda, minha mãe, irmãs, tia, e vó, além de uma sobrinha muito linda. Ainda não tenho forças suficiente para ser o pilar da família mas nos uniremos e seguiremos em frente sem arrependimentos. Uma vez ouvi uma frase muito significativa: “uma pessoa não morre quando perde sua vida, ela morre quando é esquecida”. Então eles ainda estão vivos enquanto não esquecermos.

Obrigado por tudo meus dois pais.

 

Matilde Madicai, esposa de seu Lúcio Terena, complementou o filho e registrou:

 

Força filho, sei que o momento que estamos passando e muito dolorido e triste de saudades, mas ficaram muitas lembranças boas e alegres que tivemos juntos. Seguiremos em frente com a cabeça erguida, com todo o ensinamento que eles deixaram para nós. Eles sempre estarão em nossos corações.

 

Juliene Paiva Flores, filha de seu Lucio Terena, registrou:

 

Meu pai sempre foi respeitado pela sua liderança e articulação indígena.

Em casa ele sempre foi um cara engraçado, se achava o gatão, lindão, magrão, lutador de boxe (no aquecimento para o banho), gostava de deitar no chão depois do almoço pra cochilar conosco, andava de mãos dadas comigo, era um amante da natureza e das pescarias, amava viajar, pé descalço sempre…

Era uma alma livre, não suportou ficar preso a uma cama e a um respirador, se libertou como sempre fez, resolveu voar…

Vai pai, voa mais alto e mais longe!

E daí, onde estiver, levanta novas lideranças, inspire novos desafios, nos veremos em breve.

E que o Grande Itukoóvit te receba.

 

Rafael Pereira Brito, sobrinho de seu Lucio Flores, registrou:

 

É com tristeza que recebo hoje a notícia de falecimento por Covid-19 da liderança indígena Lúcio Paiva Flores, do povo Terena, a quem nunca deixei de me orgulhar, inspirar e, tão pouco, chamar de tio.

Nascido na Aldeia Jaguapiru, na Reserva Indígena Federal de Dourados, em Mato Grosso do Sul, Lúcio Flores era graduado em Ciências Sociais e mestre em Ciência das Religiões.

Defensor da biodiversidade da floresta amazônica detinha um conhecimento aprofundado das plantas medicinais utilizadas pelas tribos da Amazônia. Lutava pela inserção indígena nas universidades públicas e atuava assiduamente contra a biopirataria no Brasil.

Liderança indígena e política pelo Partido dos Trabalhadores (PT) representou o Brasil na ONU em diversas oportunidades, compôs a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e mais recentemente a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) onde atuava na linha de frente pela proteção dos povos indígenas durante a pandemia.

Lúcio estará com seu Nhanderu e nós com seu legado.

“Para nós, a majestade dos templos não está na imponência das suas construções ou nos seus detalhes artísticos, mas na serenidade dos nossos templos naturais: as matas, os rios, as cachoeiras, as montanhas. A nossa fé e prática religiosa se evidenciam diante da natureza, nos seus muitos mistérios e magias nos quais nos banhamos e nos aprofundamos”  (O Mundo dos Separados – Lúcio Flores Terena).

 

Rocky Ribeiro, sobrinho de seu Lúcio Flores, registrou:

 

Hoje o sol não brilhou, os pássaros não cantaram, os risos se calaram e as lágrimas rolaram em meu rosto…

meu coração sofre em silêncio ao saber que perdemos um guerreiro.

Vivenciou uma boa luta em sua jornada. O amor reinará para sempre e o carinho por ti também!

Luto, perdi meu tio.

Saúde Indígena em luto.

 

Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), registrou:

 

A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) informa e lamenta profundamente o falecimento de nosso parente Lúcio Terena, ocorrido na noite deste domingo (10), em Brasília (DF), em decorrência da Covid-19.

“Seu Lúcio Terena”, assim chamado carinhosamente por nós, parente do povo Terena, da Terra Indígena Jaguapiru (MS), era escritor, teólogo, sociólogo e mestre em Ciência da Religião. Esteve conosco e com outras organizações indígenas em muitas lutas, era um diplomata nato. Cumpriu a missão e deixou legado, como a discussão e construção da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI), assessorou o Departamento Etnoambiental da COIAB, coordenou o Centro Amazônico de Formação Indígena (CAFI), concorreu a Vice Coordenação da COIAB em 2013 e, atualmente, trabalhava na Assessoria do Controle Social da SESAI, em Brasília.

Estendemos nossos mais sinceros sentimentos a todo povo Terena, a sua esposa Matilde Bakairi, seus familiares e amigos.

Nossa gratidão ao nosso GRANDE e INESQUECÍVEL GUERREIRO, SEU LÚCIO TERENA!

 

Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), registrou:

 

Nota de Pesar

A APIB está de Luto. Morreu no ultimo domingo, 10 de janeiro do corrente, vítima da Covid – 19, aos 66 anos, o líder Lício Paiva Flores. Lúcio Terena, como era mais conhecido, nasceu na aldeia Jaguapiru, no Estado Mato Grosso do Sul. Sociólogo e Mestre em Ciências da Religião, nos anos 90, morando em Cuiabá, estado de Mato Grosso. Fez parte da Diretoria do Conselho de Missão entre Índios (COMIN), depois mudou-se para Manaus – AM, onde trabalhou no Centro de Formação e no Departamento Etnoambiental da COIAB. Nos últimos 5 anos trabalhava, em Brasília, na Assessoria de Controle Social da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI).        

Lúcio teve valiosas contribuições ao movimento indígena. Destacamos, dentre elas, a sua participação nas lutas que povos, organizações e lideranças indígenas enfrentaram para tornar realidade a criação, em 2010, da SESAI, e na formatação e execução do Projeto Gestão Ambiental de Terras Indígenas (GATI) iniciativa que visava impulsionar, depois, a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental das Terras Indígenas (PNGATI).      

A APIB, que perde mais um de suas lideranças para o Novo Coronavirus, manifesta a todos os familiares de Lucio Terena as suas condolências e solidariedade fraterna. E que o Pai Tupã os conforte. Descansa em paz querido Lúcio Terena.              

Brasília, 11 de janeiro de 2021.

 

Marciano Rodrigues, coordenador da Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (Arpin-Sul), registrou:

 

A Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul comunica e lamenta profundamente o falecimento do grande companheiro de luta, LÚCIO FLORES TERENA

Lúcio Terena foi um grande articulador de defesa dos direitos indígenas e um apoiador incondicional das organizações de base, entre elas a nossa Arpinsul. Sempre nos orientou e auxiliou no fortalecimento institucional e muitas ações voltadas às políticas públicas, principalmente às de desenvolvimento ambiental sustentável, gestão ambiental e territorial. Sua sabedoria sempre incidiu nas temáticas que deram caminhos para a autonomia e voz das populações indígenas.

Nós Povos do sul estamos muito triste com essa notícia da partida tão precoce do nosso guerreiro.

Mas fica um legado em nossas vidas sua importante passagem aqui nesta terra, e marcado em nossos espíritos sua mensagem de paz para continuarmos seguindo o caminho de amor e defesa dos nossos direitos.

Valeu companheiro Lúcio Terena.

Um dia todos encontraremos na Terra Sem Males!

 

Uma Gota no Oceano (RJ), registrou:

 

A nossa natureza perdeu mais um guardião. 

Lúcio Flores Terena, mais conhecido como “Seu Lúcio”, morreu na noite deste domingo (10), em Brasília (DF), em decorrência da Covid-19. Parente do povo Terena, da Terra Indígena Jaguapiru (MS), Lúcio era escritor, teólogo, sociólogo e mestre em Ciência da Religião. Ele conquistou o diploma lá na década de 1990, desbravando novos rumos para o seu povo e servindo de exemplo e legado. 

Suas contribuições para os povos indígenas do Brasil são diversas. Podemos destacar a atuação na Diretoria do Conselho de Missão entre Índios (COMIN); no Centro de Formação e no Departamento Etnoambiental da Coiab Amazonia; e na Assessoria de Controle Social da Sesai • Secretaria Especial de Saúde Indígena, onde trabalhou nos últimos 5 anos. 

Mais do que uma liderança atuante pelos direitos do seu povo, Lúcio era um museu vivo de conhecimento ancestral que sucumbiu à pandemia. Uma perda de patrimônio cultural e ancestral em um momento de descaso das autoridades competentes na proteção aos povos tradicionais. 

A equipe Uma Gota No Oceano reverencia Seu Lúcio, e conforta, mesmo à distância, familiares e amigos que sentem esta grande perda. Todos nós perdemos. 

 

The Nature Conservancy Brasil, registrou:

 

Com pesar, lamentamos o falecimento de Lúcio Flores, importante liderança indígena do povo Terena que lutou ativamente na construção da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental das Terras Indígenas (PNGATI).

Lúcio trabalhou na TNC Brasil entre 2007 e 2011, coordenando a estruturação e implementação do Centro Amazônico de Formação Indígena (CAFI), em parceria com a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB). Seu trabalho dentro e fora da TNC foi essencial para ajudar a fortalecer jovens lideranças e instituições indígenas da Amazônia e de todo o Brasil.

Estendemos nossos sentimentos aos familiares e amigos de Lúcio, assim como ao povo Terena e às comunidades indígenas que sofrem com a perda de mais uma grade liderança em consequência da pandemia da COVID-19.

 

Henyo T. Barretto, antropólogo e professor da UNB, registrou:

 

Nossas vidas estão todas por um fio.

Depois da acachapante notícia do Marcos Guevara, hoje soubemos do falecimento, igualmente por Covid, ontem à noite, aqui em Brasília, do queridíssimo e sereno Lucio Flores Terena, cuja trajetória de incidência e luta política em defesa dos direitos indígenas, e da materialização destes em políticas públicas é tão gigantesca, que não cabe em uma postagem.

Abaixo uma foto/lembrança na qual ele aparece à direita, ao lado de Maurício Gonçalves Guarani, Romancil Kretãkaingang Kaingang e Iara Vasco Ferreira, em um painel no qual narraram a história da construção da PNGATI para uma turma de indígenas e servidores públicos da Mata Atlêntica sul/sudeste na ACADEBio – Academia Nacional da Biodiversidade; e a nota de pesar da SESAI, que nos tranquiliza em relação às tratativas relativas ao traslado do corpo.

Tristeza e dor imensas para todos que convivemos e trabalhamos com ele, testemunhas do seu saber e da sua serenidade.

A Matilde Madicai e seus filhos, meus mais sinceros sentimentos e forte abraço solidário, e para todo o povo Terena, junto ao qual será sepultado.

 

Luciane Ouriques Ferreira, antropóloga, registrou:

 

Gente… não dá pra acreditar numa coisa dessas!

Sinto muito, meu amigo Lucio Flores! Que tua partida para a aldeia dos teus ancestrais, seja leve!

Força aos parentes e ao povo Terena!

 

Alexandre Goulart, antropólogo, registrou:

 

Nosso querido Lucio Flores Terena faleceu em Brasília vítima de Covid-19.

Uma perda para sua família, para o povo Terena, seus amigos e colegas e para o movimento indígena brasileiro e latino-americano.

Algumas lembranças da passagem deste colega querido por todos que tiveram a oportunidade de compartilhar de sua calma e conhecimento (na primeira foto, como nosso inesquecível amigo e colega Jorge Terena, outro gigante de sua etnia).

 

Leóson M. Silva, técnico de Enfermagem da DSEI-Dourados (SESAI), registrou:

 

Mais uma grande perda, um grande guerreiro, uma referência dentro do controle social, hoje LAMENTAMOS sua partida, desejo aos familiares muita força e que Deus conforte a todos, Lucio Flores descanse em Deus meu amigo, obrigado pelas orientações e apoio quando estava a frente na luta!

Que Deus o receba!

 

Kamuu Dan Wapichana, registrou:

 

Minha solidariedade ao povo Terena e à minha amiga Matilde Madicai, aos familiares e amigos.  Parente Lúcio Flores era liderança indígena que teve atuação em diversos momentos importantes do movimento indígena, entre eles destacando na elaboração e discussão da PNGATI, na COIAB em muitas organizações indígenas e por último na Sesai. Parente Lúcio é mais uma vítima da Covid-19, essa doença terrível que levou bons guerreiros.

Que os nossos ancestrais possam recebê-lo com suas honras. Que nosso criador conforte e fortaleça sua família sempre.

Kaimen manawyn, Lúcio Flores Terena!

 

Ewyryky Apurinã, registrou:

 

Querido Lucio, a primeira liderança mais antiga dos Terena que conversei quando cheguei em Brasília, no museu do índio, eu tinha meus 22 anos de idade. Depois juntos com outras lideranças seguimos para o CCB para nos hospedar. E durante a noite ele me contou muitas histórias de luta e principalmente da constituinte junto com meu tio Leôncio Apurinã, umas das lideranças que também fez parte da discussão da constituinte de 1988.

 

Patrícia Naiara Kamayurá, registrou:

 

Meus sentimentos ao Povo Terena, a esposa e familiares do Lucio Flores!

Covid-19 fazendo suas vitimas!!

Uma liderança que esteve no Controle Social na Sesai lutando em prol da Saúde Indígena!

 

Yura Ni-Nawavo Marubo, registrou:

 

Descanse em paz mestre, liderança e cacique Lúcio Terena, seu trabalho e legado em prol da formação indígena ficará em nossas memórias pra sempre. A política nacional em defesa dos povos indígenas também fica órfão. Covid-19 maldito.

 

Obede Maricaua, registrou:

 

Minhas condolências aos familiares do Sr.Lucio Flores q nos deixou essa madrugada, grande profissional do controle social da saúde indígena q tive a oportunidade de conhecer, mais um dos nossos parentes que se foi e que Deus lhe receba no paraíso eterno.

Bepkororoti Paiakan, 67

Kayapó

Homenagem da COIAB e dos povos indígenas da Amazônia brasileira para o líder Bepkororoti Payakan Kayapó.

(17, Junho, 2020)


Partiu nesta manhã o grande líder Kayapó Bepkororoti, mais conhecido como Paulinho Payakan. Mais uma vida levada pela Covid-19! Para os povos indígenas, em especial os Kayapó, mais uma enciclopédia de conhecimento tradicional que se vai! Para nós, do movimento indígena, mais um companheiro de luta e liderança de referência que nos deixa!

Payakan saiu ainda jovem de sua aldeia e passou um tempo trabalhando com a Funai e conhecendo cidades e a vida fora da Terra Indígena, como estratégia para “pesquisar o mundo dos kuben (não-indígenas)”, como gostava de dizer. Quando retornou ao seu território, já como uma jovem liderança, teve participação fundamental em vários processos de luta do seu povo, inclusive na demarcação da Terra Indígena Kayapó nos anos 1980.

Payakan participou nas discussões da Assembleia Constituinte que asseguraram a inclusão dos Artigos 231 e 232 na Constituição Federal de 1988, tão importantes para os povos indígenas no Brasil. Inteligente, ótimo orador e grande estrategista, sua voz em defesa dos povos indígenas foi bem longe, no Brasil e no mundo, em várias viagens internacionais, divulgou a luta indígena, buscou parceiros e fez inúmeras denúncias.

Payakan também foi um grande defensor do meio ambiente, tendo papel chave na articulação dos povos indígenas com a temática ambiental e do desenvolvimento sustentável. Foi uma referência internacional para o assunto. Entre as várias homenagens, foi capa da importante revista Parade (Washington Post) com o título “O homem que poderia salvar o mundo”. Payakan nunca deixou de usar sua inteligência e voz para lutar pelos povos indígenas. Sempre foi atuante na sua região, nos assuntos relacionadas aos Kayapó. Em 2016, foi eleito Presidente da FEPIPA, pois estava engajado na luta dos povos do Pará, e com frequência em Brasília em diversos movimentos, tendo presença marcante nos Acampamentos Terra Livre.

Payakan é o símbolo de uma liderança indígena! Muito ligada às suas tradições e orgulhoso da beleza da cultura Kayapó! Mas também ligado na modernidade, fazendo filmagens, tirando suas fotos e conectado com o mundo.

Da sua generosidade de compartilhar conhecimentos e sabedoria, da sua força e inteligência para a luta, mas também de sua alegria contagiante. Payakan nos deixa com muitas lembranças e inspirações! Ficaremos aqui dando continuidade as batalhas em defesa dos nossos direitos e com saudades e ótimas lembranças.

Vá em paz nosso GRANDE e INESQUECÍVEL GUERREIRO Bepkororoti Payakan!

Manaus, 17 de junho de 2020

Coordenação das Organizações indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB)

 

Viva Paulinho Paiakan! Viva Bepkororoti!
Grande líder do povo kayapó morre por COVID-19 no Pará

Por Felipe Milanez*


Ontem o mundo indígena amanheceu de luto. Logo cedo começaram a chegar mensagens de áudio de choros, tristeza, vindas de diversas aldeias kayapó. Entre as 1209 pessoas que faleceram ontem no Brasil, das mais de 45 mil vítimas fatais da COVID19, a juventude indígena do Brasil perdeu um de seus maiores ídolos e referências. Em todos os grupos de trocas de mensagens com jovens indígenas, mensagens de tristeza profunda eram compartilhadas por indígenas que vivem do Xingu ao Acre, do Nordeste ao Mato Grosso do Sul, de São Paulo ao Rio Grande do Sul. Na timeline do facebook, Instagram, twitter, de todas as mídias sociais, fotos e mais fotos com mensagens de tristeza e pesar vinda de jovens indígenas em luto, perdendo uma de suas referências, num momento devastador.

Dario Vitório Kopenawa, filho do grande xamã do povo Yanomami Davi Kopenawa, publicou no twitter: “Paulinho ajudou meu pai. Meu pai ajudou Paulinho. A luta indígena é feita de união.” O cineasta Kamikia Kisedjê, do povo Kisedjê, que vive no Xingu, fez um vídeo homenagem com algumas cenas de Paulinho Paiakan dançando e lutando no Acampamento Terra Livre, em Brasília. A Rádio Yandê publicou mensagens de pesar e luto.

O movimento indígena perdeu uma de suas principais referências e uma de suas vozes com ideias e estratégias mais sofisticadas. A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e a Coordenadoria das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA) publicaram um texto em homenagem, onde expressam a dor da perda de um companheiro de luta e uma referencia: “mais uma enciclopédia tradicional que se vai!”. Relatam diversas contribuições de Paiakan ao longo de sua vida para as lutas indígenas, incluindo os artigos 231 e 232 da Constituição Federal de 1988, a eloquência como orador e estrategista, e que em suas viagens internacionais buscou parceiros e fez denuncias. Descrevem a sua generosidade, o saber tradicional, a paixão pela beleza da cultura kayapó, e o seu interesse pela modernidade — ele sempre andava com uma câmera e adorava tirar fotos.

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), publicou homenagens, vídeos e falas de Paiakan, seguindo publicações e mensagens de todas as articulações e organizações indígenas regionais. Um vídeo emocionante da APIB registrado em um ATL, Paiakan dizia: “todos nós precisamos nos unir para termos forças para lutar. Sem nossa união, não vamos ter forças para lutar. A nossa única força é a união que precisamos. Só assim vamos ter condições de vencer qualquer governo. Sem união estamos entregando nossa luta, nossa força, nossa cultura, nossa vida, para os ruralistas, para o governo.”

A FEPIPA, Federação dos Povos Indígenas do Pará, que Paiakan ajudou a fundar e foi seu primeiro presidente, divulgou uma nota relembrando alguns dos grandes feitos guerreiros de Paiakan, como contra a Usina Hidrelétrica de Belo Monte (quando se chamava Karara-ô) e na demarcação da Terra Indígena Kayapó, dizendo que muitos jovens hoje se espelham na sua trajetória de vida e de luta, e que perdem o principal chefe: “seus ensinamentos sobre a importância de lutarmos  para a garantia  dos nossos territórios e a preservação  da nossa cultura, estarão para sempre em nossas memórias”.

Fundador também da Associação Floresta Protegida (AFP), que reúne dezenas de aldeias Kayapó no Pará, que prestou outra bela homenagem, “em nome de todos os funcionários e das comunidades associadas manifestamos nossa dor e os mais profundos sentimentos pela perda de nosso parente e companheiro de tantas lutas.” Contam que ele nasceu na aldeia Kubẽkrãkêj na década de 1950, filho do cacique Tchikirí, com quem fundou a aldeia A’Ukre. “Incansável na luta, dedicou sua vida para a proteção das florestas e para a garantia dos territórios e direitos dos Povos Indígenas.”

Entre os feitos, narrados nas diferentes mensagens a AFP lembra que foi um dos primeiros kayapó a aprender português e “um de seus mais dedicados diplomatas junto a seu tio Ropni, sendo reconhecido como um notório Mẽkabẽndjwỳj, mestre das palavras.” O enterro, a AFP comunicou, será realizado de acordo com os ritos funerais de seu povo, e com cuidado para evitar a infecção, na aldeia Ngômeiti. O’é, uma de suas filhas, participa da AFP, enquanto outra filha Maial Panhpunu trabalhou por anos na Secretaria Especial de Saúde Indígena e é uma brilhante pesquisadora em direitos humanos. Tania, sua terceira filha com a esposa Irekran, formou família e vinha ajudando seus pais em Redenção e na aldeia. Suas filhas seguem a luta que aprenderam com o pai e com a mãe. Numa rede social Maial postou: “ontem eu sonhei com você e você disse: ‘seja forte, não tenha medo’”.

Irekran é uma brilhante artista Kayapó, faz pinturas majestosas, desenha roupas, joias, faz artes em miçangas, e prima-irmã da grande líder tuirá, uma ativa mobilizadora das mulheres Kayapó.

Um grande pesquisador

A dor foi sentida profundamente também entre as principais instituições de pesquisas da Amazônia, na Universidade Federal do Pará, por pesquisadores e pesquisadoras do Museu Paraense Emílio Goeldi, entre redes de antropologia como a Associação Brasileira de Antropologia, e a SALSA, a Sociedade para Antropologia das Terras Baixas da América do Sul. Paiakan foi o inventor, junto de seu amigo Darrel Posey, da etnobiologia: ensinando a pensar a partir da interdisciplinariedade, como é o método Kayapó, a viver e preservar e construir a floresta Amazônica. É graças a Paiakan, portanto, que a Universidade de Oxford, no Reino Unido, uma das principais do mundo e onde Posey ensinou, conseguiu modernizar seus departamentos de pesquisas entre antropologia e biologia e desenvolver departamentos interdisciplinares para pesquisar a ecologia.

Por denunciar os interesses econômicos e as desigualdades das relações de poder nos planos de desenvolvimento da Amazônia, nos anos 1980, Paiakan também pode ser considerado um dos fundadores da ecologia política, e um dos promotores da descolonização do conhecimento — campos de pesquisa nos quais eu atuo.

Foi por mobilizar uma rede internacional de apoio contra a construção de usinas no Xingu que Paiakan foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional, durante o governo Sarney. Paiakan inovou o movimento ambientalista, mudou a percepção elitista da ideia da conservação para mostrar como a vida dos povos indígenas era a vida da floresta. Foi companheiro de Chico Mendes e de Ailton Krenak na construção da Aliança dos Povos da Floresta. E revelou como os Kayapó não apenas defendiam a Amazônia e eram grandes conhecedores da biodiversidade, mas eram eles mesmo que plantavam a Amazônia, cotidianamente, pelo seu modo de vida.  É reconhecido como um ícone por grandes organizações ambientalistas.

Até mesmo o capitalismo foi influenciado por Paiakan. A construção da parceria pioneira com a Body Shop foi uma forma inovadora de se tentar produzir a partir da floresta sem esgotar os recursos naturais, com respeito às populações tradicionais. Reformar o capitalismo tem sido um desafio para evitar o colapso ecológico que o planeta vive em razão da atividade humana — para todos aqueles que acreditam em boas práticas de empresas, devem a Paiakan a maior inspiração de que o capitalismo deve e poderia mudar para ser, de alguma forma, sustentável.

Relações com a Funai

Entre servidores da Funai na ativa e aposentados e entre sertanistas, o choque foi igualmente profundo. Paiakan sempre foi considerado um dos principais articuladores e intermediadores entre as políticas públicas para os povos indígenas e os povos indígenas, entre o mundo indígena e o indigenismo. Por décadas foi um dedicado funcionário da Funai, onde ensinou a Funai a compreender os povos indígenas, e ensinou os indígenas a compreender como poderiam se relacionar com o Estado. Conheceu a violência do Estado na ditadura com a construção da Rodovia Transamazônica, acompanhou o trabalho de sertanistas como Afonso Alves da Cruz, que estava no contato com o seu grupo kayapó, os Kubẽkrãkêj (ou Kubenkrankren). Foi com o pai de Paiakan que o grande sertanista Afonsinho aprendeu a falar português, em um processo de contato com os povos kayapó no Pará liderado pelo sertanista Chico Meireles, entre os anos 1950 e 1960, em expedição que foi chefiada pelo sertanista Cícero Cavalcanti.

Afonsinho, como era conhecido, me relatou em um depoimento publicado no livro Memórias Sertanistas (Ed. Sesc, 2015):

“Os Kubenkrankren eram índios muito brabos. Recém tinham sido contatados quando eu cheguei. Eram brabos. Eles mataram muita gente no Xingu, eram índios violentos. A aldeia era grande, tinha mais de seiscentas pessoas. Kayapozão brabos, muito fortes, com rodelas de pau grandes no lábio, altos. Os seringueiros todos tinham medo deles. Quem mais massacrou seringueiros naquela região, de todos aqueles povos, devem ter sido os Kubenkrankren. Eram muito temidos. Eles também eram muito atacados. Teve um pessoal que participou do ataque que trabalhou no SPI (Serviço de Proteção aos Índios) também. Mas eles não falavam nada para os índios. Os índios também tinham arma de fogo. Porque eles matavam o seringueiro e levavam a arma do seringueiro. Então teve um funcionário do SPI que tinha sido baleado pelos Kubenkrankren. Ele tinha participado do massacre, do ataque que os seringueiros fizeram. Depois ele pediu as contas e foi embora. Não sei o ano, mas eles pegaram o caminho dos índios e foram atrás até a aldeia.”

O pai de Paiakan não somente ensinou Afonsinho a falar português, como foi fundamental para moldar seu caráter e engaja-lo na defesa dos povos indígenas. O que durou a vida inteira e, ele relatou, foi a partir da experiência entre os Kubẽkrãkêj.

A Funai deu apoio a Paiakan no período em que teve que viver um exílio dentro de seu território, sem liberdade para sair. E advogados da Funai conseguiram, em 2006, retomar a sua liberdade com a comutação da sua pena, cumprida dentro do território.

Foi nessa época que conheci Paiakan. Eu era editor da revista da Funai, Brasil Indígena, e acompanhei uma grande mobilização com mais de 200 chefes kayapó que aconteceu na aldeia Piaraçu, um movimento organizado por Raoni e Megaron para discutir como enfrentar a construção da usina de Belo Monte. Paiakan estava lá. Carregava sempre um caderno onde anotava tudo, em kayapó. Era uma das principais vozes do encontro, em um debate intenso com grandes intelectuais kayapó.

Já se desenhava um cenário diferente daquele dos anos 1980, e Paiakan havia percebido como a estratégia perversa de desenvolvimento do governo Lula iria provocar divisões entre os povos indígenas para facilitar a instalação de usinas hidrelétricas e promover a mineração. Conseguiram construir uma resistência tenaz, e a usina só foi autorizada pela Funai, em 2011, durante o governo Dilma e pelo então presidente da Funai Márcio Meira, de forma autoritária e sem a consulta prévia que os indígenas teriam direito. Antes de assinar Belo Monte, a Funai realizou uma reforma administrativa demitindo Afonsinho, Paiakan e Megaron de seus quadros, também abrindo processos administrativos contra Megaron por perseguição a suas atividades políticas.

Paulinho Paiakan era uma pessoa brilhante, generosa, e foi um grande visionário de seu tempo. Seu nome de branco, “kuben”, homenageava um pássaro do cerrado, enquanto seu nome verdadeiro, Bepkaroroti, descende de uma nobre linhagem. Bep são nomes de chefes, que ganham em um ritual. E Bepkaroroti foi uma grande entidade que existiu no mundo kayapó, um nome sagrado que trazia também grandes responsabilidades ao chefe. Os Kayapó, como diz a autodenominação Mẽbêngôkre, vieram do céu, de um outro planeta, habitar a Terra depois que um caçador encontrou um buraco de tatu e desceu por ele, sendo seguido por diversos outros. Bepkaroroti é um desses deuses que circulam por diferentes planetas — uma posição no mundo espiritual que Paiakan pode estar habitando agora.

Paiakan era um sábio e estrategista. Se sabia ser generoso, também sabia ser duro e intransigente em seus princípios. Condenava absolutamente a prática ilegal de garimpo e de extração madeireira, a qual alguns chefes kayapó resolveram aderir. Isso lhe custou caro, e havia rompido o diálogo com aldeias como Gorotire e Turedjam — inclusive com seu antigo parceiro de lutas, o chefe Kube-í, que passou a apoiar garimpo e apoiar, inclusive, Bolsonaro nas últimas eleições.

Infecção pela COVID-19 dentro da TI Kayapó

É possível que Paiakan tenha sido vítima justamente do que lutava contra. Já há circulação do novo coronavírus no território kayapó, atingindo a cada dia novas aldeias. Como amigo pessoal, vim conversando com Paiakan desde o início de março, preocupado com o risco de ser infectado, e ele era plenamente consciente do risco e buscou meios de evitar o contagio. Teve apoio de suas filhas, Tania, Oé e Maial, e sua esposa Irekran, para procurar isolamento. No final de março me escreveu dizendo: “estamos bem e isolado aqui em casa. Obrigado por sua preocupação com a saúde da minha família, você é amigo de verdade”. Ele queria ir para a aldeia, mas estava buscando recursos, ou seja, mais de 350 litros de gasolina para o barco, além de transporte até um pequeno porto.

Conseguiu, finalmente, ir para a aldeia. Protegido na floresta que amava, ele foi fazer visita a outras aldeias, como Moikarakô, onde tem parentes, e pode ser que tenha se infectado lá.

Uma das possibilidades da qual o novo coronavírus chegou até o território Kayapó foi através da invasão de garimpeiros, e a negociação com alguns indígenas que participam da prática ilegal. Posteriormente, festas nas igrejas evangélicas das aldeias, que até agora continuam com suas atividades diárias, contribuíram para a disseminação entre a população e a circulação no território. Paiakan lutou contra os garimpos e contra o etnocídio das igrejas — o que revela que a grandeza de sua luta poderia ter protegido os kayapó da pandemia.

Há também a suspeita de infecção por servidores da Sesai, que entram no território indígena sem realizar a quarentena fora da cidade, pois o governo federal não implantou os planos de contingência. O agente de saúde que estava no Moikarakô testou positivo quando saiu da aldeia, e ele pode ter sido o vetor involuntário da disseminação. Não é exagero retórico, como venho escrevendo nas últimas colunas, apontar o genocídio através do novo coronavírus.

O governo federal não tem dado as condições mínimas de trabalho aos agentes de saúde, e o coordenador da Secretaria Especial de Saúde Indígena, passou a última semana mais preocupado em disseminar fakenews contra o PL 1142, que foi aprovado no Senado nessa semana e prevê ações emergenciais de apoio a populações indígenas e quilombolas. Nos vídeos e mensagens que fez circular, parecia mais preocupado em economizar dinheiro para o governo federal tocar a politica de extermínio do que ajudar a salvar vidas indígenas. Depois, a caminho do Vale do Javari, onde indígenas do povo Kanamari acusam a Sesai de infectar diversas aldeias, ele fez um vídeo lamentando a morte de Paiakan.

O racismo anti-indígena da imprensa paulista

Se é hoje homenageado em tantos círculos no Brasil e mundo afora, há um grupo específico no Brasil que não aceita o brilho de Paiakan: a imprensa paulista. Paiakan foi vítima de um dos maiores crimes políticos da história da imprensa brasileira. É conhecida a famosa capa da revista Veja, estampando uma foto dele, com trajes tradicionais, escrita SELVAGEM. A acusação de estupro foi publicada em uma semana chave das negociações da Eco-92 no Rio de Janeiro, e visaram não somente atacar o líder indígena, mas todo o movimento ambientalista mundial. E favorecer, como historicamente a revista Veja favoreceu, a elite agrária do país.

Paiakan e sua esposa Irekran foram absolvidos em primeira instância, em 1994, do crime de lesão corporal, porém Paiakan foi condenado por estupro quatro anos depois pelo Tribunal de Justiça do Pará. Paiakan cumpriu a pena dentro da aldeia e Irekran foi considerada inimputável. Sobre o episódio, Paiakan falou abertamente para meu colega da época da Funai, Michel Blanco, em uma entrevista publicada na edição número 4 na revista Brasil Indígena, em 2006: “Eu entendi que não era acusação de estupro, e sim uma acusação política de um crime que eu realmente não cometi. Com o tempo, eu comecei a entender direitinho como o homem branco monta o esquema para prejudicar os outros.” Segundo Paiakan, o caso “teve repercussão para me desmoralizar e para desmoralizar a população indígena do Brasil. E fazer com que eu ou outro índio não lutasse pelos nossos direitos.” Como editores da revista, costumávamos publicar sempre uma entrevista de abertura da revista, a exemplo do que a Veja faz com as “páginas amarelas”, mas no caso, as vozes eram sempre destacadas lideranças indígenas em um movimento que entendíamos ser antirracista.

Esse caso foi profundamente investigado no livro “A construção de um réu – Payakã e os índios na imprensa brasileira”, de Maria José Alfaro Freire, baseado em uma pesquisa doutoral reuniu 217 matérias sobre Payakan, incluindo reportagens, artigos, editoriais, entrevistas, cartas, charges e notas publicados pelos jornais O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo  e pelas revistas Veja e Istoé, no período de junho a dezembro de 1992. De maneira geral, visavam criar consensos sobre a imagem negativa de Payakã, acionando estereótipos de violência, selvageria e canibalismo, e se caracterizaram por promover uma postura anti-indígena e a espetacularização do crime. Nesse sentido, as vozes do discurso de defesa eram “acionadas de maneira a serem deslegitimadas, através da ironia, porque estão em permanente confronto com as supostas evidências desenvolvidas na parte noticiosa” (página 232).

Segundo a autora, “a partir da versão instaurada na revista Veja, assim como no conjunto de suas linhas argumentativas, retomadas e desenvolvida pelos jornais de grande circulação nacional, observamos o acionamento de estereótipos historicamente operantes sobre as populações indígenas, como selvagem, para dar cor e sensacionalismo à narrativa do crime imputado a Payakã, tratado com parcialidade pela revista (página 223).

Como descreve o historiador José Bessa, no site Taquiprati a respeito das “duas mortes de Paulinho Payakã”, “a estratégia consistiu em elaborar uma narrativa ‘noir’, que das páginas policiais se deslocou às páginas editoriais, onde as discussões geram questionamentos sobre a legitimidade e a legalidade de privilégios que reconhecem a posse de territórios pelos povos originários.”

Como mostram as milhares de mensagens da juventude indígena nas mídias sociais, a imprensa não conseguiu destruir a imagem de Paiakan entre os povos indígenas. Mas conseguiu, de forma eficaz, aumentar o muro do racismo e do colonialismo no país, aumentar o fosso de seu ostracismo e obscurantismo, e isolar uma mente indígena brilhante e que sempre defendeu a possibilidade de um convívio respeitoso entre culturas no Brasil, do acesso de milhares de pessoas não indígena. Difamar Paiakan provocou sofrimento a sua família e ao movimento indígena, mas impediu, de forma também impactante, o Brasil de ser um país mais justo e sábio.

A grosseria e o desrespeito do jornalismo brasileiro contra os povos indígenas, sobretudo a grande imprensa paulista que é historicamente subserviente aos interesses da elite agrária, foi repetida ao longo dos anos pela Veja, O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. Em 1995, o atual diretor de redação da Folha, Sérgio D’Avila, publicou uma nota sobre Paiakan com o título: “o declínio do capitalista selvagem”. Apesar de Paiakan ter aceitado recebe-lo em sua aldeia após uma longa negociação, isso não impediu que o conteúdo da matéria tivesse cunho preconceituoso e difamatório, acusando-o de ter um “império de mogno e ouro”. No obituário publicado no dia da sua morte, a quarta-feira 17 de junho, a Folha de S. Paulo acusou Paiakan de ter caído no “ostracismo” depois da acusação de estupro — além de citar histórias fantasiosas escrita por um novelista espanhol para tentar reportar a dimensão de Paulinho Paiakan, dimensão esta que muitos jornalistas da imprensa paulista e em geral, infelizmente, ainda desconhecem.

A revista Veja, nos anos posteriores, publicou inúmeras reportagens produzidas com racismo contra os povos indígenas — chegou a ser interpelada seguidamente pelo movimento indígena e pelo Ministério Público Federal. Foi assim uma matéria com chamada na capa, em maio de 2010, com o título de “A Farra da Antropologia Oportunista”, onde difamava diversas lideranças indígenas como cacique Babau, dos Tupinambá, e Dada, dos Borari. Nesse caso, eu já conhecia em detalhe como a Veja havia operado contra Paiakan, que já era meu amigo e eu já estava engajado no reconhecimento dessa injustiça histórica, e critiquei em minha conta pessoal do twitter o racismo da matéria da Veja — que reagiu exigindo da National Geographic Brasil, aonde eu trabalhava como editor, a minha demissão.

A luta do futuro se inspira no passado

Muito do sofrimento que o país vive hoje sobre o governo de ideologia fascista de Bolsonaro é de responsabilidade da mesma imprensa que difamou Paulinho Paiakan. Os brancos no Brasil teimam em achar que o que acontece com os índios e os negros não irá atingi-los, como se pudessem passar livremente dos efeitos terríveis que o racismo produz na sociedade. O Brasil ganhou o governo fascista que hoje é responsável por desprezar a gravidade de uma pandemia que já matou quase 50 mil pessoas por não reconhecer a luta de indígenas e negros por um país mais justo. Entre eles, o grande Bepkaroroti. Suas palavras em defesa da ecologia já não são sem tempo de serem ouvidas e politicamente defendidas, pois o futuro será sombrio para toda a humanidade em um Planeta em emergência climática.

O Brasil perdeu um de seus maiores heróis da sua trágica história de um país colonial e racista, cujos heróis populares não estão emoldurados na parede nem em estatuas em praças. A história de Paiakan remete à historia de grandes lideres indígenas históricos como Cunhambebe, Sepé Tiaraju, Ajuricaba, e da “história que a história não conta”, como cantou a Mangueira no célebre samba de 2019, aquele que diz que “desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento”.

É no panteão da memória dos grandes lideres indígenas que lutaram contra a colonização, contra o racismo, em defesa da liberdade e da fraternidade entre povos, em defesa da natureza, daqueles que imaginaram coabitar e conviver em suas diferenças em um belo território, com uma ecologia singular, que está Paiakan. Ele viverá para sempre nas memórias das futuras gerações, se este vier a ser um pais mais justo, indígenas e não-indígenas.

*[Texto originalmente publicado na “Carta Capital”, 18/06/2020; revisto para publicação na CLACSO]

 

Leiam também esse texto de José R. Bessa Freire “As duas mortes de Paulinho Payakã”.

FONTES

Foto em Destaque: Murilo Santos (Enviada pelas filhas de Bep’kororoti Payakan)

Fotos da Galeria: Reprodução// Beto Ricardo – ISA; Beto Ricardo – ISA; Arquivo Instituto Raoni (via Amazônia Real); Adelino Mendez (em Facebook); Mídia Ninja; Ueslei Marcelino (via Reuters) ; Bruno Santos (Via Folhapress); Mídia Ninja.

Mídia Ninja // Arquivo Instituto Raoni (via Amazônia Real)
– https://amazoniareal.com.br/lideranca-indigena-historica-paulinho-paiakan-morre-vitima-de-covid-19/ 

ISA- Sociambiental
– https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/morre-paulo-paiakan-grande-lideranca-kayapo

Folhapress
– https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/06/morre-lideranca-caiapo-paulinho-paiakan-vitima-da-covid-19.shtml

Adelino Mendez
https://www.facebook.com/adelinodelucena.mendes/posts/3004618586321646

Reuters
https://br.reuters.com/article/idBRKBN23O38U-OBRTP

Carta Capital
https://www.cartacapital.com.br/artigo/viva-paulinho-paiakan-viva-bepkororoti/

TAQUIPRATI – Por José Ribamar Bessa Freire:  “As duas mortes de Paulinho Payakã”

http://www.taquiprati.com.br/cronica/1529-as-duas-mortes-de-paulinho-payaka