Aruká Juma, 70.

Juma

Biografia feita por Luciana França, antropóloga e professora do Programa de Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e colaboradora da Rede Vagalumes.


O que dizer sobre Aruká Juma, último homem de seu povo que teve a chance de viver com os seus, antes de restar só, com as filhas e netos, exilado para sempre de sua própria comunidade e de seu próprio passado? O que quer que se diga estará sempre muito aquém de alcançá-lo. Sua solidão não tinha parâmetros. Aruká nunca falou português e, mesmo em sua língua, falava pouco. Observava o mundo à sua volta de maneira silenciosa. Sorria, às vezes. Chorava a “saudade grande”, o ajapyryty tupi-kagwahiva, debruçado sobre os túmulos dos parentes mortos, enterrados na terra onde viveram um dia, antes dos massacres genocidas que quase os exterminaram por completo.

 

Consta que em 1964 ocorreu a última grande chacina, da qual Aruká e alguns outros juma sobreviveram. Desse massacre, houve investigação da Polícia Federal, inquérito, confissões e numerosos indícios de quem seriam os mandantes que, entretanto, nunca foram punidos. Segundo os relatos das filhas de Aruká, que nasceram duas décadas depois e ouviram apenas os relatos do que aconteceu na época, os brancos chegaram por toda parte e, depois que os Juma lançaram todas as suas flechas, eles atiraram com suas armas de fogo. Quase todos morreram e algumas meninas teriam sido raptadas. Os corpos de alguns Juma foram esquartejados e suas partes – cabeças e costelas – fincadas em paus e deixadas expostas.

 

Por mais de trinta anos, o pequeno grupo juma que conseguiu escapar ao massacre, viveu em seu próprio território, no sudeste do estado do Amazonas, evitando o contato com os brancos. Nesse período, nasceram as três filhas de Aruká com sua esposa que faleceu, quando elas eram ainda pequenas, e foi enterrada nas terras onde viviam. Ao longo dos anos, foram reduzidos a tão poucos que decidiram fazer novas alianças. Foram viver na Terra Indígena Uru-eu-wau-wau, em Rondônia, levados por um agente da Funai. Ali se casaram e tiveram filhos e filhas dessas novas uniões. Durante mais de dez anos, longe de sua terra e de seus parentes nela enterrados, Aruká acalentou o sonho de poder voltar. Na aldeia dos Uru-eu-wau-wau, perguntava insistentemente aos brancos que ali passavam sobre a viagem à sua terra natal. Até que, em 2012, Aruká pôde retornar definitivamente para suas terras, onde descansavam seus antepassados.

 

Durante quase dez anos, até fevereiro de 2021, Aruká pôde estar com as filhas, genros, netas e netos de volta em suas terras, compartilhando com eles seus conhecimentos, sua vida e, por conseguinte, a vida de seu povo. Segundo os relatos das filhas de Aruká, na época do último ataque em que os Juma foram praticamente exterminados, o pai delas tinha por volta de 15 anos. Não é possível saber ao certo quando nasceu Aruká, mas essa informação talvez seja a mais segura para estimar a sua idade. Possivelmente, ele tinha pouco mais de 70 anos quando contraiu Covid-19 dentro de seu próprio território. Não estava com a idade tão avançada como se noticiou após a sua morte. Provavelmente, teria ainda muitos anos pela frente, que teriam sido fundamentais para que as crianças tivessem a oportunidade de conviver com ele e apreender sua história e seu legado.

 

Aruká foi enterrado na aldeia juma, junto de sua falecida esposa, como pediu às filhas que fosse feito. 

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Lucio Paiva Flores, 66

Terena

Lúcio Paiva Flores, liderança do povo Terena, infelizmente faleceu no último domingo, dia 10 de janeiro de 2021, aos 66 anos, por complicações da Covid-19. Ele nasceu em 22 de maio de 1954, na Aldeia Jaguapiru, Reserva Indígena de Dourados, Mato Grosso do Sul. Era uma importante liderança entre os Terena e demais povos indígenas do seu estado, e uma referência para o movimento indígena em escala nacional. Trabalhava há cinco anos na Assessoria do Controle Social da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), por isso atualmente morava em Brasília.

 

Conhecido carinhosamente como “seu Lúcio Terena”, deixou um grande legado para o Brasil e para a luta indígena, tendo colaborado ativamente na construção de diversas políticas públicas, tais como a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI), e a Política Nacional de Saúde Indígena. Atuou em diversas frentes de mediação de conflitos, e integrou a assessoria do Departamento Etnoambiental da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia (COIAB). Também coordenou o Centro Amazônico de Formação Indígena (CAFI).

 

Graduado em Ciências Sociais e mestre em Ciência das Religiões, seu Lúcio Terena era escritor e pastor, com larga experiência em Serviço Social. É autor do livro “Adoradores do Sol: reflexões sobre a religiosidade indígena”. Foi um grande defensor da saúde indígena e da biodiversidade, da fauna e da flora nativas do território brasileiro. Tinha exímio conhecimento sobre plantas medicinais utilizadas pelos povos indígenas, e lutou contra a biopirataria, sobretudo na região amazônica. Também lutou pela inserção dos povos indígenas nas universidades públicas. Por muitos anos foi liderança indígena e política pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Representou o Brasil e os povos indígenas na Organização das Nações Unidas (ONU) em várias ocasiões, sendo reconhecido pelo movimento indígena nacional como um diplomata nato, sempre sereno e comprometido com as pautas da luta indígena.

 

Com dona Matilde Madicai (Kurâ-Baikari) teve um filho, Lucio Yeruá, que assim relembrou a difícil perda de seu avô (pai de seu Lúcio): “Quando ele [avô] se foi, meu mundo caiu pela primeira vez. Senti a dor desse mundo, mas com todos os ensinamentos dele e com a força de todos me fortaleci e segui em frente”. Em seguida traduziu, em poucas e belas palavras, o sentimento do Brasil indígena e indigenista sobre seu Lúcio Terena: “Ele era respeitado por todos os lugares e por todas as etnias aonde ia. Sempre existia uma pessoa que o conhecia e sabia da história dele. Era sempre muito confiante de tudo e de si. Eu o via como uma inspiração, sempre contando histórias de viagens e reuniões, pelo Brasil e mundo afora. Sei muito bem o tipo de homem que ele era, uma liderança indígena, um professor, um pastor e um belo pai…”

 

Com dona Maria Eva Moreira seu Lúcio Terena teve duas filhas, Juliene Paiva Flores e Luciene Flores. Mais ou menos nessa época ele se converteu ao presbiterianismo. Nas redes sociais, Juliene expressou orgulho por ser filha de Lucio Flores: “Meu pai sempre foi respeitado pela sua liderança e articulação indígena”.

 

O estado do Mato Grosso do Sul abriga a segunda maior população indígenas do país, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e estatística (IBGE). A população dos Terena é bastante numerosa, conforme informações do Instituto Sociambiental (ISA):

 

“Com uma população estimada em 16 mil pessoas em 2001, os Terena, povo de língua Aruák, vivem atualmente em um território descontínuo, fragmentado em pequenas ‘ilhas’ cercadas por fazendas e espalhadas por sete municípios sul-matogrossenses: Miranda, Aquidauana, Anastácio, Dois Irmãos do Buriti, Sidrolândia, Nioaque e Rochedo. Também há famílias terena vivendo em Porto Murtinho (na TI Kadiweu), Dourados (TI Guarani) e no estado de São Paulo (TI Araribá). […] Os Terena, por contarem com uma população bastante numerosa e manterem um contato intenso com a população regional, são o povo indígena cuja presença no estado se revela de forma mais explícita, seja através das mulheres vendedoras nas ruas de Campo Grande ou das legiões de cortadores de cana-de-açúcar que periodicamente se deslocam às destilarias para changa, o trabalho temporário nas fazendas e usinas de açúcar e álcool.”

 

Graziele Acçolini, etnóloga especialista na temática do povo Terena, registrou em um artigo que as religiões cristãs predominam na região. A religião protestante, em vertente pentecostal, possui importância notável no universo simbólico e religioso dos Terena, e se tornou elemento integrante daquela sociedade.

 

 

Lúcio Yeruá, filho de seu Lúcio Terena, registrou:

 

Com todos esses anos de vida, mesmo que poucos, sempre pensei que teria essas duas pessoas, esses dois professores, esses dois orgulhos, na minha vida.

Mas tudo tem um começo, meio e fim. Dedico esta mensagem a esses dois melhores pais que tive, eles me ensinaram a andar, a conversar e a viver. Mas o melhor de tudo, me orgulharam. Eu sei que posso não ter sido o melhor neto e o melhor filho, mas esses dois me fizeram passar os melhores momentos da minha vida.

Primeiramente meu vô, que desde antes de eu nascer já queria me dar tudo de bom. Cuidava de mim com todas as forças. Me ensinava sobre a história de nosso povo. Mesmo que às vezes achando chato, eu sempre escutava com o maior respeito e atenção, ele tinha um respeito muito grande pela nossa comunidade. Nós o levávamos a lugares incríveis para que pudesse aproveitar, retribuindo tudo que ele nos deu. Quando ele se foi, meu mundo caiu pela primeira vez, senti a dor desse mundo, mas com todos os ensinamentos dele e com a força de todos me fortaleci e segui em frente.

Com o passar do tempo meu pai se tornou o pilar da família, era nele que depositávamos todos as nossas forças, escolhas e confianças. Ele era respeitado por todos os lugares e por todas as etnias aonde ia. Sempre existia uma pessoa que o conhecia, e a história dele. Era sempre confiante de tudo e de si. Eu o via como uma inspiração, sempre contando histórias de viagens e reuniões, pelo Brasil e mundo afora. Sei muito bem o tipo de homem que ele era, uma liderança indígena, um professor, um pastor e um belo pai, que mesmo nos desentendendo às vezes nunca nos separávamos. Como ele mesmo dizia, “somos amigos”, e essa amizade estará comigo para o resto da vida.

Sei que tenho uma responsabilidade enorme por ser filho dele, em todos os lugares do Brasil ele tinha uma história. Aprendi várias coisas com ele, o resto terei que aprender com o passar do tempo, tenham paciência, ainda tenho 17 anos. Não quero ocupar nem substituir o lugar dele, vou conquistar o meu com a ajuda desses dois pilares da família.

Mas hoje tenho que cuidar de quem está comigo e precisa da minha ajuda: minha mãe, irmãs, tia, e vó, além de uma sobrinha muito linda. Ainda não tenho forças suficientes para ser o pilar da família, mas nos uniremos e seguiremos em frente, sem arrependimentos. Uma vez ouvi uma frase muito significativa: “Uma pessoa não morre quando perde sua vida, ela morre quando é esquecida”. Então eles ainda estão vivos enquanto não esquecermos.

Obrigado por tudo meus dois pais.

 

 

Matilde Madicai, esposa de seu Lúcio Terena, complementou o filho:

 

Força, filho! Sei que o momento que estamos passando é muito dolorido e triste de saudades, mas ficaram muitas lembranças boas e alegres que tivemos juntos. Seguiremos em frente com a cabeça erguida, com todo o ensinamento que eles deixaram para nós. Eles sempre estarão em nossos corações.

 

 

Juliene Paiva Flores, filha de seu Lucio Terena, registrou:

 

Meu pai sempre foi respeitado pela sua liderança e articulação indígena. Em casa ele sempre foi um cara engraçado, se achava o gatão, lindão, magrão, lutador de boxe (no aquecimento para o banho). Gostava de se deitar no chão depois do almoço pra cochilar conosco, andava de mãos dadas comigo, era um amante da natureza e das pescarias, amava viajar, pé descalço sempre… Era uma alma livre, não suportou ficar preso a uma cama e a um respirador, se libertou como sempre fez, resolveu voar…

 

Vai pai, voa mais alto e mais longe!

 

E daí, onde estiver, levanta novas lideranças, inspire novos desafios. Nos veremos em breve. E que o Grande Itukoóvit te receba.

 

 

Rafael Pereira Brito, sobrinho de seu Lucio Flores, registrou:

 

É com tristeza que recebo hoje a notícia de falecimento por Covid-19 da liderança indígena Lúcio Paiva Flores, do povo Terena, de quem nunca deixei de me orgulhar, de me inspirar e, tão pouco, de chamar de tio.

 

Nascido na Aldeia Jaguapiru, na Reserva Indígena Federal de Dourados, em Mato Grosso do Sul, Lúcio Flores era graduado em Ciências Sociais e mestre em Ciência das Religiões.

Defensor da biodiversidade da floresta amazônica, detinha um conhecimento aprofundado das plantas medicinais utilizadas pelas tribos da Amazônia. Lutava pela inserção indígena nas universidades públicas e atuava assiduamente contra a biopirataria no Brasil.

 

Liderança indígena e política pelo Partido dos Trabalhadores (PT) representou o Brasil na ONU em diversas oportunidades. Compôs a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e, mais recentemente, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), onde atuava na linha de frente pela proteção dos povos indígenas durante a pandemia.

 

Lúcio estará com seu Nhanderu e nós com seu legado.

 

“Para nós, a majestade dos templos não está na imponência das suas construções ou nos seus detalhes artísticos, mas na serenidade dos nossos templos naturais: as matas, os rios, as cachoeiras, as montanhas. A nossa fé e prática religiosa se evidenciam diante da natureza, nos seus muitos mistérios e magias nos quais nos banhamos e nos aprofundamos” (O Mundo dos Separados – Lúcio Flores Terena).

 

 

Rocky Ribeiro, sobrinho de seu Lúcio Flores, registrou:

 

Hoje o sol não brilhou, os pássaros não cantaram, os risos se calaram e as lágrimas rolaram em meu rosto…

 

Meu coração sofre em silêncio ao saber que perdemos um guerreiro.

 

Vivenciou uma boa luta em sua jornada. O amor reinará para sempre e o carinho por ti também!

 

Luto, perdi meu tio.

 

Saúde Indígena em luto.

 

 

Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB):

 

A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) informa e lamenta profundamente o falecimento de nosso parente Lúcio Terena, ocorrido na noite deste domingo (10), em Brasília (DF), em decorrência da Covid-19.

 

“Seu Lúcio Terena”, assim chamado carinhosamente por nós, parente do povo Terena, da Terra Indígena Jaguapiru (MS), era escritor, teólogo, sociólogo e mestre em Ciência da Religião. Esteve conosco e com outras organizações indígenas em muitas lutas, era um diplomata nato. Cumpriu a missão e deixou legado, como a discussão e construção da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI). Assessorou o Departamento Etnoambiental da COIAB, coordenou o Centro Amazônico de Formação Indígena (CAFI), concorreu à Vice-Coordenação da COIAB em 2013 e, atualmente, trabalhava na Assessoria do Controle Social da SESAI, em Brasília.

Estendemos nossos mais sinceros sentimentos a todo povo Terena, à sua esposa Matilde Bakairi, e aos seus familiares e amigos.

 

Nossa gratidão ao nosso GRANDE e INESQUECÍVEL GUERREIRO, SEU LÚCIO TERENA!

 

 

Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB):

 

Nota de Pesar

 

A APIB está de Luto. Morreu no ultimo domingo, 10 de janeiro do corrente, vítima da Covid – 19, aos 66 anos, o líder Lúcio Paiva Flores. Lúcio Terena, como era mais conhecido, nasceu na aldeia Jaguapiru, no Estado Mato Grosso do Sul. Sociólogo e Mestre em Ciências da Religião, nos anos 90, quando morava em Cuiabá, estado de Mato Grosso. Fez parte da Diretoria do Conselho de Missão entre Índios (COMIN), depois mudou-se para Manaus – AM, onde trabalhou no Centro de Formação e no Departamento Etnoambiental da COIAB. Nos últimos 5 anos trabalhava em Brasília, na Assessoria de Controle Social da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI).      

  

Lúcio deu valiosas contribuições ao movimento indígena. Destacamos, dentre elas, a sua participação nas lutas que povos, organizações e lideranças indígenas enfrentaram para tornar realidade a criação, em 2010, da SESAI, e na formatação e execução do Projeto Gestão Ambiental de Terras Indígenas (GATI) iniciativa que visava impulsionar, depois, a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental das Terras Indígenas (PNGATI).      

 

A APIB, que perde mais um de suas lideranças para o Novo Coronavirus, manifesta a todos os familiares de Lucio Terena as suas condolências e solidariedade fraterna. E que o Pai Tupã os conforte. Descansa em paz querido Lúcio Terena.   

           

Brasília, 11 de janeiro de 2021.

 

Marciano Rodrigues, coordenador da Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (Arpin-Sul):

 

A Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul comunica e lamenta profundamente o falecimento do grande companheiro de luta, LÚCIO FLORES TERENA.

 

Lúcio Terena foi um grande articulador de defesa dos direitos indígenas e um apoiador incondicional das organizações de base, entre elas a nossa Arpinsul. Sempre nos orientou e auxiliou no fortalecimento institucional, e em muitas ações voltadas às políticas públicas, principalmente às de desenvolvimento ambiental sustentável, gestão ambiental e territorial. Sua sabedoria sempre incidiu nas temáticas que deram caminhos para a autonomia e voz das populações indígenas.

 

Nós Povos do sul estamos muito triste com essa notícia da partida tão precoce do nosso guerreiro.

Mas fica um legado em nossas vidas, sua importante passagem aqui nesta terra, e marcada em nossos espíritos sua mensagem de paz, para continuarmos seguindo o caminho de amor e defesa dos nossos direitos.

 

Valeu companheiro Lúcio Terena.

Um dia todos encontraremos na Terra Sem Males!

 

 

Uma Gota no Oceano (RJ), registrou:

 

A nossa natureza perdeu mais um guardião. 

 

Lúcio Flores Terena, mais conhecido como “Seu Lúcio”, morreu na noite deste domingo (10), em Brasília (DF), em decorrência da Covid-19. Parente do povo Terena, da Terra Indígena Jaguapiru (MS), Lúcio era escritor, teólogo, sociólogo e mestre em Ciência da Religião. Ele conquistou o diploma lá na década de 1990, desbravando novos rumos para o seu povo e servindo de exemplo e legado. 

 

Suas contribuições para os povos indígenas do Brasil são diversas. Podemos destacar a atuação na Diretoria do Conselho de Missão entre Índios (COMIN); no Centro de Formação e no Departamento Etnoambiental da Coiab Amazonia; e na Assessoria de Controle Social da Sesai • Secretaria Especial de Saúde Indígena, onde trabalhou nos últimos 5 anos. 

 

Mais do que uma liderança atuante pelos direitos do seu povo, Lúcio era um museu vivo de conhecimento ancestral que sucumbiu à pandemia. Uma perda de patrimônio cultural e ancestral em um momento de descaso das autoridades competentes na proteção aos povos tradicionais. 

 

A equipe Uma Gota No Oceano reverencia Seu Lúcio, e conforta, mesmo à distância, familiares e amigos que sentem esta grande perda. Todos nós perdemos. 

 

 

The Nature Conservancy Brasil:

 

Com pesar, lamentamos o falecimento de Lúcio Flores, importante liderança indígena do povo Terena que lutou ativamente na construção da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental das Terras Indígenas (PNGATI).

 

Lúcio trabalhou na TNC Brasil entre 2007 e 2011, coordenando a estruturação e implementação do Centro Amazônico de Formação Indígena (CAFI), em parceria com a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB). Seu trabalho dentro e fora da TNC foi essencial para ajudar a fortalecer jovens lideranças e instituições indígenas da Amazônia e de todo o Brasil.

 

Estendemos nossos sentimentos aos familiares e amigos de Lúcio, assim como ao povo Terena e às comunidades indígenas que sofrem com a perda de mais uma grade liderança em consequência da pandemia da COVID-19.

 

 

Henyo T. Barretto, antropólogo e professor da UNB, registrou:

 

Nossas vidas estão todas por um fio.

 

Depois da acachapante notícia do Marcos Guevara, hoje soubemos do falecimento, igualmente por Covid, ontem à noite, aqui em Brasília, do queridíssimo e sereno Lucio Flores Terena, cuja trajetória de incidência e luta política em defesa dos direitos indígenas, e da materialização destes em políticas públicas é tão gigantesca, que não cabe em uma postagem.

 

Abaixo uma foto/lembrança na qual ele aparece à direita, ao lado de Maurício Gonçalves Guarani, Romancil Kretãkaingang Kaingang e Iara Vasco Ferreira, em um painel no qual narraram a história da construção da PNGATI para uma turma de indígenas e servidores públicos da Mata Atlêntica sul/sudeste na ACADEBio – Academia Nacional da Biodiversidade; e a nota de pesar da SESAI, que nos tranquiliza em relação às tratativas relativas ao traslado do corpo.

 

Tristeza e dor imensas para todos que convivemos e trabalhamos com ele, testemunhas do seu saber e da sua serenidade.

 

A Matilde Madicai e seus filhos, meus mais sinceros sentimentos e forte abraço solidário, e para todo o povo Terena, junto ao qual será sepultado.

 

 

Luciane Ouriques Ferreira, antropóloga, registrou:

 

Gente… não dá pra acreditar numa coisa dessas!

 

Sinto muito, meu amigo Lucio Flores! Que tua partida para a aldeia dos teus ancestrais, seja leve!

 

Força aos parentes e ao povo Terena!

 

 

Alexandre Goulart, antropólogo, registrou:

 

Nosso querido Lucio Flores Terena faleceu em Brasília vítima de Covid-19. Uma perda para sua família, para o povo Terena, seus amigos e colegas e para o movimento indígena brasileiro e latino-americano.

 

Algumas lembranças da passagem deste colega querido por todos que tiveram a oportunidade de compartilhar de sua calma e conhecimento (na primeira foto, como nosso inesquecível amigo e colega Jorge Terena, outro gigante de sua etnia).

 

 

Leóson M. Silva, técnico de Enfermagem da DSEI-Dourados (SESAI):

 

Mais uma grande perda, um grande guerreiro, uma referência dentro do controle social, hoje lamentamos sua partida, desejo aos familiares muita força e que Deus conforte a todos, Lucio Flores descanse em Deus meu amigo, obrigado pelas orientações e apoio quando estava a frente na luta! Que Deus o receba!

 

Cacique Rony Pareci:

 

Prezada amiga Matilde Madicai, com dor no coração e tristeza pela partida do meu amigo e mestre Lucio Flores, venho dar minhas palavras de conforto e força a você amiga, bem como a todos os familiares.

 

Conheci este líder e mestre Lucio em 2000, ou seja, há 21 anos, quando trabalhava como coordenador do GTME, o qual passou a ser uma referência em vários aspectos de vida para mim… o qual peguei como balizamento de fazer a minha trajetória sociocultural, política e educacional. Foi graças este mestre que na capital Cuiabá conseguimos a primeira abertura para o ingresso de indígenas nas diferentes universidades e cursos, na qual fui contemplado na época. Através do GTME ele conseguiu bolsas estudantis, financeiro para manter os 12 jovens indígenas acadêmicos desta época.

 

Hoje sou muito grato pela contribuição significativamente desse mestre, qual legado perpetuará para mim e para muitos.

 

Todos nós somos passageiros nesta vida, qual neste ciclo devemos sempre fazer o bem e ajudar o próximo com dignidade e virtude, assim como Lucio fez nesta passagem dele neste mundo. As várias ações que fez em prol dos povos indígenas da família e dos amigos é o que nos fazem sentir essa imensa saudade.

 

Aqueles que partem para outra vida e que deixam aqui na terra exemplo, virtude, dignidade de pessoa, foram e sempre serão lembrados, enaltecidos. Isso significa que não morreram. Morrem aqueles que não são lembrados.

 

Já o mestre Lucio Flores Terena deixa saudades, deixa um legado de exemplo, de ser um líder autêntico, sereno e flexível, que fez sua trajetória de vida com o respeito e a simplicidade de um grande homem… por isso ele não morreu e sim fez eternizar o que foi a sua pessoa em nossas lembranças, memórias e saudades que nos motivaram a caminhar, como ele sempre fez quando estava aqui conosco.

 

DESCANSE EM PAZ MESTRE.

 

 

Kamuu Dan Wapichana:

 

Minha solidariedade ao povo Terena e à minha amiga Matilde Madicai, aos familiares e amigos.  Parente Lúcio Flores era liderança indígena que teve atuação em diversos momentos importantes do movimento indígena, entre eles destacando na elaboração e discussão da PNGATI, na COIAB em muitas organizações indígenas e por último na Sesai. Parente Lúcio é mais uma vítima da Covid-19, essa doença terrível que levou bons guerreiros.

 

Que os nossos ancestrais possam recebê-lo com suas honras. Que nosso criador conforte e fortaleça sua família sempre.

 

Kaimen manawyn, Lúcio Flores Terena!

 

 

Ewyryky Apurinã:

 

Querido Lucio, a primeira liderança mais antiga dos Terena que conversei quando cheguei em Brasília, no museu do índio, ainda tinha meus 22 anos de idade. Depois, junto com outras lideranças, seguimos para o CCB para nos hospedar. E durante a noite ele me contou muitas histórias de luta e principalmente da constituinte, junto com meu tio Leôncio Apurinã, umas das lideranças que também fez parte da discussão da constituinte de 1988.

 

Patrícia Naiara Kamayurá:

 

Meus sentimentos ao Povo Terena, a esposa e familiares do Lucio Flores!

Covid-19 fazendo suas vitimas!!

Uma liderança que esteve no Controle Social na Sesai lutando em prol da Saúde Indígena!

 

Yura Ni-Nawavo Marubo:

 

Descanse em paz mestre, liderança e cacique Lúcio Terena. Seu trabalho e legado em prol da formação indígena ficará em nossas memórias para sempre. A política nacional em defesa dos povos indígenas também fica órfã. Covid-19 maldita.

 

 

Obede Maricaua:

 

Minhas condolências aos familiares do Sr.Lucio Flores, que nos deixou esta madrugada. Grande profissional do controle social da saúde indígena que tive a oportunidade de conhecer, mais um dos nossos parentes que se foi e que Deus lhe receba no paraíso eterno.

FONTES

Foto em Destaque: Arquivo Pessoal de Lúcio Flores Terena  
Fotos da Galeria:  Arquivo Pessoal de Lúcio Flores Terena; (IDEM); (IDEM); Lúcio Yeruá; Juliene Paiva Flores; Arquivo Pessoal de Lúcio Flores Terena; Rocky Ribeiro; Juliene Paiva Flores; Arquivo Pessoal de Lúcio Flores Terena; (IDEM); (IDEM); Frederico Oliveira; (IDEM); (IDEM); (IDEM); (IDEM); Henyo T. Barretto; Alexandre Goulart; Arquivo Pessoal de Lúcio Flores Terena.

Weytãg Suruí, 98.

Suruí Paiter

Weytãg Suruí, 98 anos, lamentavelmente, faleceu no dia 2 de Janeiro de 2020, em decorrência das complicações advindas da Covid-19. A anciã pertencia ao clã Kaban do povo Suruí Paiter e sobreviveu à chegada do novo coronavírus nos territórios indígenas, mas sucumbiu ao descaso e ao crime de responsabilidade com a saúde indígena no governo de Bolsonaro e de seu vice o general Hamilton Mourão. A matriarca chegou a ver, ainda na primeira onda da pandemia, Renato Suruí, um de seus sete filhos, falecer e ser enterrado antes mesmo do que ela poderia imaginar.

Weytãg Suruí foi casada com o labiway esagah (líder maior) Marimop Suruí, ele pertencia ao clã dos guerreiros Gameb do povo Suruí Paiter. Ambos foram testemunhas oculares e sobreviventes do sistemático genocídio promovido contra os povos Suruí Paiter e demais povos indígenas da região durante o contato com os colonizadores.  Weytãg morava na aldeia Apoena Meireles, na Terra Indígena Sete de Setembro (MT/RO). Os traços da pintura que marcavam sua face demonstravam a forte conexão com as antigas tradições do povo Suruí: a anciã praticava a costumeira arte do fiar e falava apenas o (Tupi-)Mondé.

Para que o seu amplo conhecimento sobre a medicina tradicional, a língua e a cultura da floresta fosse retransmitido às gerações mais jovens, as histórias e narrativas dos tempos dos antigos que por ela eram contadas dependiam da tradução feita por seus filhos. Apesar de manter fortes laços com o passado de seu povo, Weitãg não escapou do choque cultural advindo do contato com o mundo do branco, e frequentava a igreja fundada por missionários cristãos, chegando a gravar algumas músicas cristãs na própria língua Mondé.

Sem dúvida, a morte de Weitãg é uma grande perda para todos os povos da floresta. Além de ser uma importante conhecedora e liderança do povo Suruí Paiter, Weitãg personificava e incorporava os seculares desafios simbólicos e materiais que foram e ainda são enfrentados por numerosos povos indígenas no Brasil, cujas vidas se dividem em, pelo menos, dois mundos que são extremamente diferentes.

Segundo Fabiano Maisonnave do jornal Folha de São Paulo (FSP), o cacique Almir Narayamoga Suruí, 46 anos, atual labiway esagah dos Suruí e também importante liderança no movimento nacional dos povos indígenas no Brasil, ressaltou que o “contato sempre foi um desafio pro nosso povo. A geração da minha mãe nos orientou a chegar até aqui para que a gente pudesse compreender a diferença da cultura e sobreviver dentro dessas diferenças”.

A reportagem da FSP traz também o relato do neto de Weytãg, Rubens Suruí, 31 anos, através do qual ele fala da importância de sua vó: “Para nós, a minha avó é uma pessoa de conhecimento. Não somente na área de ervas tradicionais, ela também nos aconselhava. Foi uma pessoa sensacional”.

 

Um breve contexto histórico sobre os Suruí Paiter.


Segundo informações do Instituto Socioambiental (ISA) a TI Sete de Setembro dos Suruí Paiter abrange parte dos municípios de Cacoal (Mato Grosso) e de Aripuanã (Rondônia) e é “banhada pela bacia do Rio Branco, afluente do rio Roosevelt, que se forma a partir da junção dos  rios Sete de Setembro e Fortuninha. Os principais afluentes do rio Branco que drenam a área são o Ribeirão Grande, rios Fortuninha e Fortuna, na margem direita. Na margem esquerda há os rios Igapó (nomeado pelos Paiter), rio São Gabriel e outros sem denominação em carta topográfica do IBGE” (ISA). O idioma originário pertence ao grupo Tupi e à família linguística Mondé.

O contato com os não indígenas acarretou inúmeras transformações sociais e culturais entre os Paiter. No entanto, os Suruí jamais deixaram a cultura de seu povo ser anulada frente a essas intensas modificações provocadas pelo contato com o mundo do branco. Até hoje eles são, reconhecidamente, vistos como um povo guerreiro, que lutou pela demarcação de seu território e que continua a lutar por políticas públicas etnicamente diferenciadas.

Ainda segundo os dados do ISA, os primeiros contatos dos Surui Paiter com a sociedade nacional foram a partir do século XIX, que provocaram constantes ciclos emigratórios e fugas da perseguição dos não-indígenas. Ao final desse mesmo século, com o Ciclo da Borracha, veio também a construção da estrada Madeira-Mamoré, bem com as linhas telegráficas de Rondon. Aumentando os deslocamentos forçados dos povos indígenas nessa região – o que acarretou não só em mudança de territórios, como em mortes e disputas por territórios entre diferentes grupos indígenas.

Esse “mau encontro” se efetivou de modo ainda mais intenso, sobretudo, a partir de meados do século XX com um novo ciclo da Borracha, com a chegada da mineração (cassiterita) e também com a chegada de fazendeiros que invadiram a região, numa expansão das fronteiras de colonização que foram impulsionadas pela Ditadura Militar (1964-1985).

Até a década de 60 a violência cometida pelo Estado brasileiro se dava através da negligência, da omissão e do descaso com os Suruí Paiter. Porém, a partir da Ditadura Militar, a violência se torna uma política promovida pelo Estado brasileiro e para essa região, podem-se destacar: a construção da BR-364/Cuiabá-Porto Velho, e sua pavimentação posterior com a chegada do Programa de Desenvolvimento Integrado do Noroeste do Brasil (Polonoroeste).

Este Programa, financiado pelo Banco Mundial, criado por um decreto em 1981, tinha como principal objetivo a promoção de uma maior integração entre as regiões do país. Desse modo, era um projeto que, supostamente, levaria o desenvolvimento e o progresso para as regiões mais remotas através da criação de estradas que davam acesso a lugares que, na época, eram inacessíveis, e mantinham ali apenas a presença dos povos indígenas. Apesar dos Paiter Suruí terem sido contatados somente em 1969, a invasão de seu território por não-indígenas fez arrastar o processo de “demarcação” e “desmarcação” da sua terra pelo Estado brasileiro, que só veio a ser concluído e homologado em outubro de 1983.

 

Almir Suruí, filho de Weytãg, registrou:


Muito triste, saudade, minha mãe… te amo!!

 

Janete Suruí, atual esposa de seu Almir Suruí e nora de Weitãg, registrou:


Minha sogra Weytãg Suruí, faleceu no dia 2 de janeiro e está fazendo muita falta. Weytãg, minha querida sogra, foi uma mulher muito guerreira e lutou por muitas coisas e trouxe benefícios para todo o nosso povo. E esta saudade dela vai ficar pra sempre e eterna. Sei que agora o coração dói, mas reconforta saber que ela está num lugar ainda mais bonito.

 

Oypagoemagad Suruí, neto de Weytãg, registrou:


Vó, você está com Deus agora e eu fico feliz por isso. Mas a senhora deixou saudade eterna aqui dentro de mim.

 

Kanindé – Associação de defesa socioambiental:


Com muita tristeza comunicamos o falecimento da anciã Weitãg do povo Paiter Suruí. Guerreira indígena sobrevivente do contato, ela era uma grande biblioteca do universo Tupi Mondé.

Nossos profundos sentimentos ao povo Paiter.

 

Ivaneide Cardozo:


Weytã Suruí faleceu ontem de Covid-19, não tenho palavras para expressar essa dor.

 

Denise Zmekhol:


Weitãg died of Covid. The Surui people and the world lost a beautiful elder who had yet many stories to tell us.

 

Silvia Guimarães:


Meus sentimentos a todos pela perda dessa matriarca Kaban, que muito ensinou com suas palavras, conselhos, expressões. Fez histórias, viajou para o mundo e mostrou para que veio, exerceu seu legado e deixa seu exemplo. Cumpriu sua missão nesse plano e continuará sua missão em um outro nível na espiritualidade. Que nosso pai maior possa confortar a todos familiares nesse momento de separação e dor. Com muito carinho, amor, gratidão e respeito deixo meu abraço de conforto a todos.

 

Erika Bányai:


Que perda inestimável para seu povo, perda inestimável para a Memória dos povos indígenas de todo o mundo. Meus sinceros sentimentos de tristeza e de solidariedade.

FONTES

Foto em Destaque: Reprodução//Facebook, página da Associação Metareilá.
Fotos da Galeria: Jürgen Vogel; Reprodução//Facebook, página da Associação Metareilá; Arquivo pessoal de Almir Suruí; Jürgen Vogel; Reprodução//Facebook, página Os Paiter Suruí; Children of the Amazon; Arquivo pessoal de Celso Lamitxab Surui; Jürgen Vogel; Arquivo pessoal de Almir Suruí; IDEM; Arquivo pessoal de Ivaneide Cardozo; Arquivo pessoal de Almir Suruí; IDEM.

 

Folha de São Paulo
https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2021/01/testemunha-de-genocidio-ancia-indigena-morre-com-sintomas-de-covid-19.shtml 

Children of the Amazon

https://www.childrenoftheamazon.com/about-the-film/characters/

https://www.facebook.com/denise.zmekhol/posts/10158958455260699


Associação Metareilá (Facebook)
https://bityli.com/SBYVa


Os paiter Suruí (Facebook)

https://bityli.com/nMNVg 

Instituto Socioambiental
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Surui_Paiter

Alípio Xinuli Irantxe, 81

Manoki

Paresi Haliti Waimare, registrou:

 

Uma das vozes mais conhecidas da região partiu deste mundo, vítima da Covid-19, no dia de hoje, 24 de dezembro de 2020, depois de vários dias internado no hospital em Cuiabá.

Alípio Xinuli Irantxe do povo Manoki, foi a primeira vítima a se contaminar desse mal que assombra o nosso povo e toda a humanidade.

Seu Alípio, 81 anos, viveu muitas, mas muitas histórias mesmo em nossa região. Sua trajetória de luta foi marcada por desafios e conquistas. E mesmo aos 81 anos, ainda estava na luta pela preservação da cultura Manoki. Foi um exímio tocador de flautas.

Seu Alípio deixa filhos, netos e bisnetos e um legado gigantesco de bravura. Passou por diversas dificuldades, em uma delas enfrentou a epidemia de sarampo que quase extinguiu o seu povo. Vai em paz seu Alípio, vai nos fazer falta. Mas, sabemos que foi viver na aldeia Celestial, junto de seus filhos e esposa que por lá, já estão. Foi se encontrar seu amigo e irmão Xinhama que pegou a mesma doença, mas foi levado primeiro, como vítima fatal desse mal.

Temos certeza que o senhor já está junto de Inuli (Deus).

 

Poriciwi Wai Wai, 80.

Waiwai

“Biblioteca da Selva – Poriciwi Wai Wai, a memória de um povo e o enterro na aldeia* – biografia feita por Ruben Caixeta de Queiroz.

 

A pandemia forçou muitos a ficarem em casa, mas outros, para trabalhar, precisaram sair às ruas – ou voltar à roça. Foi o caso da diarista Edilene Penha de Almeida da Silva, que após perder o emprego na cidade teve que buscar trabalho numa lavoura de café. A crise fez evaporar num relance as suas conquistas, exigindo que ela retornasse a um mundo do qual tinha bravamente escapado.

Para o indígena Renato Poriciwi Wai Wai, as coisas aconteceram de forma contrária. Graças ao seu filho arqueólogo, ele conseguiu rever depois de décadas a terra onde nasceu e da qual foi forçado a sair com seu povo. Havia poucos sinais da aldeia antiga no local, mas a visita foi um grande momento de felicidade para Poriciwi, antes de ele ser levado pela Covid-19.

                                     ***

Conheci Jaime Xamen Wai Wai quando visitei sua aldeia na Terra Indígena Nhamundá-Mapuera, no Noroeste do Pará, para uma pesquisa do meu doutorado em antropologia e cinema, em 1994. Era um garoto de 8 anos, baixinho para sua idade, risonho e curioso. Logo que me viu, ele perguntou na sua língua: “Ahtono ewto pono amoro?” (Em qual aldeia você mora?). A minha aldeia era Belo Horizonte.

Xamen me procurou 24 anos depois para que eu o orientasse numa dissertação de mestrado em arqueologia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde dou aulas. Ele já estava casado, era pai de uma menina de 5 anos, mas preservava o olhar cheio de curiosidade da infância.

Fiz duas perguntas a ele antes de aceitar o encargo de orientador: “Por que você veio para uma cidade tão distante da sua aldeia? E por que procurou a mim, que não sou arqueólogo, e sim etnólogo?” Xamen me respondeu que queria um orientador que conhecesse o seu povo, sua história e a paisagem onde ele vive, porque, assim, “ficaria mais fácil conversar e explicar sobre os lugares de que gostaria de falar”. E, respondendo à segunda pergunta, disse que optara pelo meu nome porque seu trabalho não seria de arqueologia tradicional. “Não quero escavar a terra para ver os restos do meu povo, quero só ver onde estavam as aldeias antigas do meu pai, contar sua história e sobre o tempo presente ao lado dele”, explicou.

Xamen havia feito o curso de graduação em arqueologia na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), em Santarém, e ali já intuíra que tipo de trabalho “arqueológico” gostaria de realizar. Estava relacionado com o que lhe dissera certa vez seu pai, Renato Poriciwi Wai Wai, quando Xamen lhe perguntou onde estava enterrada sua avó. “Eu levo você até lá e mostro o lugar da aldeia dela, mas não quero que desenterre a minha mãe. Ela não deve ser perturbada. O espírito dela já deve estar tranquilo, vivendo num lugar encantado.” Com o termo “espírito” (ekatï), Poriciwi se referia à parte que abandona o corpo quando a pessoa morre.

Foi assim que Xamen começou a pensar em outro tipo de “escavação”, em outra forma de falar da história de seu povo, sem desenterrar corpos, buscando nos relatos de seu pai os fundamentos para a dissertação de mestrado iniciada em 2019, que ele intitulou provisoriamente de “Lugares dos Waiwai antes do contato: reconstruindo a história através da arqueologia, da etnografia e da memória”.[1]

Depois de Xamen, que hoje tem 34 anos, foi a vez de seu sobrinho Roque Yaxikma Wai Wai, seis anos mais novo, me procurar, em 2019, para também fazer mestrado em antropologia na UFMG. Quando estão em Belo Horizonte, eles se hospedam em casas de amigos, inclusive na minha e na do arqueólogo Igor Morais Mariano Rodrigues. Como esperado na relação tio-sobrinho entre os índios waiwais, os dois passam o tempo todo em pequenas rusgas, quase sempre bem-humoradas, um tentando desbotar o brilho do outro ou menosprezar sua opinião. Mas estão ambos empenhados nesse objetivo comum que é estudar a história do povo Waiwai e contá-la “para o branco”, como dizem. E pretendem um e outro se estabelecer em sua aldeia, para proteger o território e manter vivas as tradições.

Os Waiwai fazem parte de um conjunto de povos (entre os quais, Tunayana, Xereu, Hixkaryana, Katuwena e Wayana) que vivem na fronteira entre Brasil, Guiana e Suriname. Entre o final do século XIX e o início do século XX, foram quase exterminados por epidemias levadas pelos colonizadores. Mas conseguiram sobreviver, formando comunidades multiétnicas e multilinguísticas. Hoje somam cerca de 6 mil pessoas e habitam 54 aldeias numa grande área na Floresta Amazônica, dividida em três terras indígenas chamadas oficialmente de Nhamundá-Mapuera, Trombetas-Mapuera e Kaxuyana-Tunayana. Em 2019, esses povos resolveram criar por conta própria um conselho e deram ao conjunto das três áreas o nome de Território Wayamu, ou Jabuti, réptil que consegue sobreviver durante meses no interior da mata, sem comida e sem água – um bicho obstinado e resistente.

 

Em janeiro último, Xamen concebeu e liderou uma expedição até o local onde seu pai nasceu e sua avó foi sepultada, na divisa de Roraima e Pará, quase na fronteira com a Guiana. Participei dessa expedição com mais vinte pessoas: Xamen, seu sobrinho Yaxikma, seu pai, Poriciwi, com cerca de 80 anos, a mulher dele, Lea Wahciki Wai Wai, em torno de 70 anos, e uma grande parte da família (genros, noras, filhas e netos), além da antropóloga Leonor Valentino de Oliveira e do arqueólogo Igor Morais.

Partimos da aldeia Mapuera, localizada no coração do Território Wayamu. Coubemos todos em três canoas, duas movidas a motor de popa e uma a motor de rabeta, que seguiram rumo ao Norte, subindo para as cabeceiras do Rio Mapuera, na direção da Guiana. De tempos em tempos, parávamos em algum ponto marcante da paisagem para observá-lo: uma ilha, um lago, uma boca de rio, uma pedra, uma serra. A cada parada, Poriciwi nos contava algo sobre a história dos waiwais e as entidades cosmológicas que habitam os lugares. Fazia muito tempo que ele não voltava à região onde haviam se estabelecido seus ascendentes, numa aldeia chamada You (buriti).

Poriciwi, um homem muito alegre e generoso, exímio artesão, tinha sido um grande namorador na juventude e gostava de se lembrar dos vários casos amorosos do passado. Ele conhecia cada detalhe do que nós chamamos de “paisagem”, mas que para os indígenas significa mais que isso: é o espaço onde habita uma multiplicidade de viventes, seja pessoas-animais, seja pessoas-plantas.

Certo dia, nós nos deparamos com uma ilha rochosa onde havia uma única e pequena árvore. Poriciwi a reconheceu: a pessoa-árvore estava lá desde que ele era criança, havia mais de setenta anos. Debaixo da ilha, ele nos disse, moravam seres mágicos. Era ali que o xamã de sua aldeia mergulhava para obter as pedras para os rituais de cura e outras práticas. Pirimaw Wai Wai, um dos dois genros de Poriciwi na expedição, então mergulhou nas proximidades da ilha e apanhou algumas daquelas pedras para nos mostrar. Depois as devolveu ao fundo do rio – para os seus donos.

No quinto dia de viagem, Poriciwi reconheceu o lugar onde as pessoas de sua aldeia tomavam banho e pescavam. Desembarcamos, mas ele não conseguia identificar o lugar exato da aldeia, apesar de sua boa memória. A vegetação nativa crescera sobre os locais onde os indígenas haviam feito, no passado, o terreiro e seus roçados. Sabíamos, porém, que estávamos bem perto do local. Pirimaw, que nunca tinha estado lá, mas era exímio conhecedor da floresta, comentou: “Aqui é o caminho para a roça… Essa espécie só nasce em capoeira… Essa outra só cresce perto daquela, em local onde tiver tido roça… Aqui está o carvão, que acompanha o tronco caído no chão…” Por fim, encontramos o local exato da aldeia You, depois de investigarmos uma dezena de lugares onde houvera outras no passado, todas elas abandonadas.

Embora cansado, Poriciwi reanimou-se durante a estadia na antiga aldeia: andava para lá e para cá, ria, brincava, lembrava histórias de sua infância e acontecimentos míticos. Disse que ele e seu povo haviam sido felizes naquele lugar, onde não existia não indígenas e nada se sabia sobre o mundo dos brancos. Havia, sim, doenças, mas contou que se conheciam todos os remédios para curá-las.

Cerca de setenta anos atrás, Poriciwi e sua família saíram daquela aldeia e foram para a Guiana, dando ouvidos a missionários evangélicos norte-americanos que lhes disseram haver por lá uma vida boa e edênica. Todos os membros da aldeia partiram, mas com o propósito de voltar – o que nunca fizeram. Primeiro, se instalaram na Guiana, no entorno da aldeia Kanashen, que era a base de uma missão evangélica. Depois, dispersaram-se e fundaram novas aldeias no Pará, em Roraima e no Suriname. Nunca abandonaram, porém, o sonho de um dia retornar à aldeia de seus antepassados, situada num lugar muito remoto e de difícil acesso.

Xamen ouvia tudo que contava seu pai, anotava, gravava, pois queria recontar essa história a partir dos relatos dele, feitos “ao vivo” e naquela paisagem. O estudante estava pondo em prática a sua arqueologia sem escavação: era preciso apenas ouvir o antepassado, ver a floresta, distinguir suas diferentes composições, reconhecer os vestígios antigos e retraçar as linhas que os ligam ao presente. Era uma arqueologia indígena. Uma arqueologia viva.

“Por que voltar tão depressa?”, perguntou Poriciwi quando chegou o momento da partida. “Por que vocês estão me levando embora? Eu quero ser enterrado aqui, na minha terra.” Depois de vinte dias de expedição, chegamos de volta à aldeia de Poriciwi na Terra Indígena Nhamundá-Mapuera, situada a cerca de 600 km de barco de Manaus e a mesma distância da capital de Roraima, Boa Vista.

 

Pouco tempo depois, a Covid-19 começou a se espalhar pelo Brasil, atingindo fortemente a região Norte do país. No fim de março, Roraima confirmou os primeiros casos. Em abril, o sistema de saúde de Manaus entrou em colapso.

Em 15 de maio, Poriciwi apresentou sintomas da doença: tosse e dificuldade para respirar. No dia 22, foi levado para o posto de saúde da cidade de Oriximiná, no Pará. De imediato, os médicos recomendaram que fosse transferido para um hospital em Santarém. Contudo, havia dois outros pacientes graves à espera da mesma transferência, e Poriciwi só pôde ser levado em 26 de maio. No Hospital Regional de Santarém, foi internado numa UTI. Seu estado de saúde, no entanto, piorou dia após dia. Na noite de 5 de junho ele morreu.

Durante todo o tempo em que seu pai esteve no hospital, Xamen o acompanhou, mas sem poder vê-lo ou tocá-lo. Em Belo Horizonte, eu ficava a imaginar essa situação tão dolorosa. Na mesma noite da morte de seu pai, Xamen me ligou, por volta das 22 horas. “Ruben, me ajuda a levar o meu pai para ser enterrado na aldeia”, ele pediu, aos prantos. Queria seguir a tradição do seu povo e enterrar o corpo do pai em sua aldeia – não a da infância de Poriciwi, mas aquela onde ele passou seus últimos anos.

Para os waiwais, assim como para outros povos indígenas, é muito importante que o ritual funerário seja executado com o devido cuidado, pois é o momento em que o espírito se tranquiliza e se apronta para seguir rumo a outro patamar cósmico – deixando em paz e sem sofrimento os parentes e outros viventes da Terra.

Comecei a fazer ligações e disparar apelos. Liguei para um funcionário da Casa de Saúde Indígena (Casai) da cidade de Oriximiná, no Pará. “Desculpe-me, mas não posso fazer nada”, me disse o homem. “É norma da Sesai [Secretaria Especial de Saúde Indígena] e do Ministério da Saúde: o corpo deve ser enterrado na cidade de Santarém, conforme o protocolo da Covid-19.”

Telefonei, então, para o coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena Guamá-Tocantins (Dsei), responsável pela saúde indígena na região entre Leste do Pará e Maranhão, e tentei convencê-lo a transladar o corpo para a aldeia. Sabia que devia agir rápido, pois tinha ouvido falar que a situação sanitária estava um caos e que nos hospitais do Pará corpos estavam sendo enterrados sem que as famílias soubessem onde.

O coordenador do Dsei, porém, não quis atender de imediato o meu pedido. “Não vamos levar o corpo para a aldeia, é muito arriscado, podemos espalhar o vírus.” E me relatou casos de indígenas que teriam tirado o corpo do parente de dentro do caixão para enfeitá-lo, conforme o seu rito funerário, desrespeitando assim os protocolos sanitários. Retruquei: “Não sei nada sobre esses casos, mas sei que os waiwais não vão proceder dessa forma, pois as suas lideranças me asseguraram que irão modificar o rito para cumprir o protocolo da Covid-19.” O coordenador não cedeu. “Não, não posso permitir”, ele concluiu.

Não consegui dormir. De madrugada, tomei coragem e liguei para o procurador do Ministério Público Federal, em Santarém, Gustavo Kenner Alcântara. Ele me atendeu de forma solícita e disse que, embora fosse um pedido difícil, tentaria ajuizar uma ação para que o corpo fosse levado para a aldeia.

Passei toda a manhã do dia 6 de junho ligando para lideranças indígenas, perguntando se todos estavam de acordo com a ida do corpo e cientes dos riscos que isso representava para a população indígena. Todos os líderes me confirmaram estar sabendo dos perigos e que tomariam as providências para enterrar seu parente com cuidado. Eu lhes sugeri: “Então vocês precisam se mobilizar, porque os responsáveis pela saúde indígena dizem que o corpo vai ficar em Santarém.”

Por volta de meio-dia, recebi a notícia de que o Ministério Público Federal tinha, finalmente, elaborado um protocolo para o translado, depois de entrar em acordo com o coordenador do Dsei. O protocolo proibia a abertura do caixão, que pessoas tocassem no corpo de Poriciwi e que houvesse aglomeração durante o rito funerário. Os encarregados do sepultamento deveriam estar munidos obrigatoriamente de máscara e luvas.

Na tarde do mesmo dia 6, o corpo foi levado numa aeronave até a aldeia Mapuera. Lá, apenas dois genros de Poriciwi (na cultura waiwai, esses familiares são as pessoas designadas para preparar o ritual funerário), protegidos por máscaras, capas de plástico e luvas, receberam o caixão. Sem abri-lo, levaram-no para o sepultamento, que não foi feito dentro da casa de um parente, como seria o costume, nem teve a presença e o pranto da família, mas pôde ocorrer, enfim, na aldeia. Um filho de Poriciwi, Fernando Makari Wai Wai, de 57 anos, não teve o mesmo destino: apesar dos protestos de seu povo, ele foi enterrado num cemitério de Boa Vista, após morrer de Covid-19, em 4 de julho.

A subnotificação de casos de Covid-19 é mais um dos indicadores da péssima gestão da pandemia pelo governo e está ocorrendo também em relação aos indígenas. Por isso a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) tem feito um imenso esforço para levantar o número de vítimas. Segundo essa importante organização, entre 155 povos afetados havia 28 mil casos positivos e 731 mortos até 26 de agosto. Entre as vítimas, estão professores, lideranças, rezadores e idosos conhecedores da história dos povos.

Quando morre um ancião, parte significativa do conhecimento de uma aldeia também morre, o que coloca em risco a continuidade de todo um modo de vida. No caso de Poriciwi, contudo, uma coisa é certa: parte da tradição de seu povo e de sua sabedoria foi transmitida a seus descendentes, em particular na expedição à aldeia original.

Mesmo assim, ainda não sei como Xamen dará prosseguimento à sua pesquisa de mestrado nem se conseguirá levar a cabo uma arqueologia indígena sem a ajuda da biblioteca que era seu pai. Espero que consiga e que a vida de Poriciwi possa servir de exemplo às gerações futuras sobre a importância de preservar o seu passado e manter em pé sua floresta, onde ainda vivem imantadas as pessoas, as pessoas-animais e as pessoas-plantas, apesar da voracidade dos predadores, que hoje são legião no Brasil.

[1] Para a nomenclatura dos povos indígenas e sobrenomes, foi adotado neste texto o padrão do Quadro Geral dos Povos do Instituto Socioambiental (ISA). “Waiwai” quando se trata de povo ou aldeia (como “Brasil”); os waiwais quando se refere à população em geral (como “os brasileiros”); “Wai Wai” quando diz respeito ao sobrenome.

* O texto dessa biografia foi publicado originalmente na Revista Piauí; Edição 168 de Setembro de 2020.

FONTES

Foto em Destaque: Ruben Caixeta de Queiroz

Fotos da Galeria: Ruben Caixeta de Queiroz; Reprodução // Página da Associação dos Povos Indígenas do Mapuera – APIM; Arquivo Pessoal de Jaime Xamen; Arquivo Pessoal de Walter Powci; Arquivo Pessoal de Cerdiane de Oliveira.

 

Piauí

https://piaui.folha.uol.com.br/materia/biblioteca-da-selva/

Hàraxàre Krokti, 58

Gavião Akrãtikatêjê

“Acredito que a passagem dele pela Terra, por aqui, foi muito boa, importante, porque ele deixou um legado de luta, de mostrar como é ser Gavião.” – (Madson Gavião)

 

Hàraxàre Krokti, Seu Matias, 58 anos, nascido em Tucuruí-PA, será sempre lembrado por sua luta, força e sabedoria. 

 

Durante vida, Matias carregou consigo a resistência e os conhecimentos que pautaram ao longo dos anos a luta dos Gavião-Akrãtikatêjê, seu povo. O enfrentamento constante às violências e aos inúmeros confrontos vividos, sejam esses a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí – que os expulsou violentamente de suas terras -, as linhas de transmissão da Eletronorte ou as invasões ilegais de posseiros, fizeram com que a luta fosse constante. 

 

Nas palavras de seu filho, Madson Gavião, Seu Matias era admirado não só por sua força, por suas falas sempre firmes e por sua luta pela comunidade, mas também pelo forte empenho em resguardar a cultura e os conhecimentos sobre os Gavião. Nos últimos tempos, se dedicou a ser cinegrafista da comunidade, memorizando, por meio do audiovisual, as longas festas culturais que participava. Depois, mergulhou-se no trabalho como professor cultural, reunindo anciãos para, em cada comunidade, jogar flecha, compartilhar e ensinar história e os saberes da cultura Gavião. Para Madson, o pai “sempre lutou pela educação, educação indígena, educação diferenciada, implantada nas comunidades”.

 

Seu Matias acumulava admirações: era grande corredor de tora, ilustre arqueiro, guerreiro, caçador, que buscava sempre, para seus filhos e todos da comunidade, ensinar sobre os animais, plantas e arte da caça. Era também vigilante, responsável por comandar grupos que combatiam posseiros de terras e invasores na Terra Indígena. Combatente de inúmeras formas, defendendo sua terra, seu povo e as raízes dos Gavião-Akrãtikatêjê que o guiavam. 

 

Raízes essas que continuarão a ser fortalecidas, mantidas e cuidadas, mesmo após a partida de de Seu Matias, que nos deixou no dia 12 de outubro de 2020, em Teresina, devido a complicações decorrentes da Covid-19.  Nas palavras de Madson, o pai será sempre lembrado, e os conhecimentos que possuía serão um legado do exemplo vivo do que é ser Gavião. 

 

Em sentimentos à família e à todo povo Gavião. Em agradecimento ao Madson, que participou integralmente da construção dessa homenagem. 

 

Homenagem de Vincent Carelli

 

Estou arrasado com a partida do meu aluno, amigo e compadre Matias do povo Gavião. Meus sinceros sentimentos a toda a família. Ele estará mandando seu recado no filme Adeus Capitão, fazendo uma crítica precisa e profunda da perda do senso de coletividade. Morreu de Covid na era de um governo genocida!

 

Homenagem de Danielli Jatobá

 

Quero humildemente prestar minha homenagem a uma pessoa incrível que fez sua passagem.

Conheci Seu Matias em dezembro. O encantamento que tive por ele e pela sua esposa Juka foi das maiores alegrias dos tempos de Pará. Lembro da gente conversando sobre as festas e brincadeiras, sobre a história do seu povo, sobre a língua, sobre todas as mudanças que tiveram que encarar.

Exímio flecheiro, orientava, junto com Seu Miriti, Boemi e Expedito, as corridas de varinha que acompanhei como parte da Festa do Peixe. Corredor, me mostrou imagens antigas da força e alegria dos corredores e corredoras Gavião. Seu nome é Hàraxàre, filho de Rõnore – “mamãe grande” – e sobrevivente da família Akrãtikatejê que resistiu até o último momento em Tucuruí. Irmão de Paiaré e Zeca Gavião, tio da cacique Kátia, pai de meninos fortes, era visivelmente um esteio da aldeia em que escolheu viver, a Krijõnherekatejê.

Guerreiro no melhor sentido da palavra. Disposto, preparado, atento e com uma visão certeira e crítica dos acontecimentos das últimas décadas que submeteram os Gavião do Pará a uma roda sem fim de negociações, violências e confrontos. Foi do grupo de proteção que garantiu a ocupação efetiva do território demarcado que lhes restou. Corajoso, flechou muito em defesa de seu povo e da integridade da TI. Hoje, guerreiro de frente na mobilização nacional indígena que acontece em Brasília. Tudo lastreado no poético costume de se encontrar para flechar que reúnem os mais velhos e mais velhas no Acampamento da sua aldeia. Arqueiro delicado, nos ensinou o quanto de conhecimento e território há numa flecha.

Estava muito dedicado a novidade de ser o professor da língua – m’pajarkwa – na escola de sua comunidade. Sábio, estava organizando um material de apoio belíssimo com ilustrações ricas em cores e em diversidade. Guardava as imagens da sua juventude filmadas por seus parceiros e outras feitas por ele mesmo. Um memorialista em todos os sentidos possíveis. Ver essas filmagens em sua companhia foi um presente que recebi da vida.

Ele me pediu umas leis e me fez perguntas que me preparei toda para responder. Estudei jurisprudência, pensei em como produzir com ele as estratégias que ele requeria. Sonhei com esse retorno, me isolei dedicadamente, organizei conteúdo para um tipo de planejamento e curso sobre direitos. Sonhava em voltar. Falei com ele por telefone na semana passada quando soube que estava internado para tratamento em Teresina. Complicações do Covid. E não resistiu.

Quero declarar que essa notícia foi das mais tristes que poderíamos ter recebido. Todos nós. Pois ele é uma perda para sua família, mas também para os Akrãtikatejê, para os Gavião e para todos os povos que lutam com e por dignidade.

Gostaria de estar lá agora pranteando junto com a sua família. Honro com minhas lágrimas a possibilidade de conhecer em vida uma pessoa tão amável, linda e forte. Meus pensamentos estão com Jokakure Juka , que perdeu seu companheiro de vida, depois de perder a mãe para a mesma doença. Toda força à família! Meus respeitos e sentimento.

FONTES

Foto em Destaque: Vincent Carelli

Fostos da Galeria: Vincent Carelli; Arquivo Pessoal da família de Hàraxàre Krokti; (IDEM); Danielli Jatobá; Arquivo Pessoal da família de Hàraxàre Krokti; (IDEM); (IDEM); (IDEM); (IDEM); (IDEM); (IDEM); Danielli Jatobá.

 Colaboração: Letícia Silva e Pires, graduanda em Ciências Sociais (UFMG).

Ahkïto, 110.

Tukano

Texto escrito por Duhigó (Daiara Tukano), neta de seu Ahkïto.

 

Meu bisavô Erëmiri – João Sampaio – patriarca do clã Erëmiri Ahûsiro Paramera do povo Yepá Mahsã – Tukano, nasceu por volta de 1850 no rio Tiquiê, fronteira entre Brasil e Colômbia, muito jovem foi levado pelos comerciantes de borracha para os quais trabalhou por 30 anos remando pelas regiões de Barcelos até a Venezuela. Testemunhou um período difícil, em que o império da borracha promoveu o trabalho escravo indígena nos seringais e piaçabais, muitos parentes era seu levados pelos seringueiros a trabalhar em lugares distantes, enfrentando muita violência e morrendo de malária. Erëmiri foi resgatado pelas lideranças da Aldeia Esteio Igarapé no rio Tiquiê, no Distrito de Pari Cachoeira. Foi lá que nasceu meu avô Ahkïto, Casimiro Lobo Sampaio dia 26 de julho de 1910.

Os seringalistas estimulavam os conflitos políticos entre os povos da região, manipulando os clãs maiores para que estes vendessem pessoas dos clãs menores ao trabalho escravo da borracha. Diante desses conflitos, Erëmiri e Ahkïto saíram de Esteio Igarapé para fundar em 1927 a aldeia São Francisco, no rio Tiquié e se organizar contra o tráfico de escravos e o assédio das missões.

O ciclo da borracha, conhecido como “Belle époque amazônica” entre 1890 a 1920, fez de Manaus uma cidade Governada por magnatas cuja fortuna era regada à sangue da escravidão indígena. O desenvolvimento econômico provocado pela revolução industrial impulsionou o comercio da borracha na região amazônica que supria 40% da demanda mundial.

1910 foi o mesmo ano da fundação do Serviço de Proteção ao Índio SPI pelo marechal Rondon e da criação da Prefeitura apostólica do Rio Negro, que foi confiada em 1914 pela Santa Sé à Ordem Salesiana para o projeto expansionista da igreja católica na Amazônia como projeto “civilizatório”.
O código civil de 1916 proclamou os índios relativamente incapazes. No mesmo ano foi fundada a missão salesiana de São Gabriel da Cachoeira, marcando o inicio do processo de aldeamento das populações indígenas ao redor das igrejas, que foram construídas estrategicamente nos lugares sagrados de encontros tradicionais milenares dos povos da região.

A ordem Salesiana proibiu as Malokas, casas comunais, onde eram praticadas as cerimonias tradicionais de dabacuri e jurupari, que foram consideradas por eles como espaços insalubres e pecaminosos “casas do diabo”. As malokas foram derrubadas e as famílias foram divididas em pequenos casebres ao redor das igrejas e dos internatos.

Os religiosos católicos perseguiram os pajés, proibiam as cerimonias tradicionais e retiravam ou destruíam os objetos sagrados. Erëmiri foi defensor das tradições e preferiu jogar seu colar de pedra e demais objetos de cerimônia no rio em vez de entregá-los aos salesianos.

A missão salesiana ajudou a combater o regime de escravidão e as violências praticadas pelos gestores do SPI na época, até hoje lembrados por crimes hediondos, como o português Manduca, que dirigiu uma prisão onde indígenas “revoltosos” ou “fugitivos” eram acorrentados nas pedras, torturados, e as mulheres colocadas em fileira para ser estupradas à beira do rio. Manduca foi expulso pelos missionários que instalaram próximo ao posto do SPI o internato de Taracuá encima da pegada do gigante, um dos sítios mais sagrados de nosso povo.

Os internatos gigantescos construídos com mão de obra indígena ofereciam ensino elementar até a 4a série. As crianças eram levadas aos internatos em regime fechado a partir dos seis anos de idade para receber educação básica, aprender a ler e escrever, fazer cálculo. Ensinar marcenaria e construção aos meninos e Costura e fazeres domésticos às meninas. As línguas indígenas eram proibidas sob pena de punição severa. Doenças como gripe, malária, catapora e tuberculose eram frequentes e as crianças maiores eram responsáveis por enterrar aqueles que não sobreviviam longe de suas famílias.

Como jovem liderança tradicional, Ahkïto foi convidado aos quinze anos de idade para trabalhar para os missionários: visitando as comunidades a remo e ajudando no diálogo e na tradução. Erëmiri falava bem português e língua geral, mas não sabia ler e escrever, por isso pediu ao seu filho Ahkïto que estudasse na missão salesiana de Pari Cachoeira que foi fundada em 1938.

Ahkïto foi aluno da segunda turma de Pari Cachoeira, seus professores eram europeus, espanhóis, franceses e italianos, ex-militares ou sobreviventes e fugitivos da primeira guerra mundial, que chegaram na Amazônia como missionários para exorcizar seus próprios demônios mas acabaram demonizando e combatendo as culturas indígenas da região. Casimiro foi um dos melhores alunos, um grande leitor, escritor, como intelectual aprendeu os cantos e cerimonias tradicionais, tornando-se militante defensor da cultura Tukano.

Casou-se com minha avó Diakarapó – Guilhermina Sampaio, de família tradicional Desana, por quem foi muito apaixonado e com quem muitos filhos e filhas.

Meu pai Doéthiro – Alvaro Sampaio nasceu em 1953 na Aldeia São Francisco, desde pequeno foi educado no conhecimento tradicional pessoalmente por seu avô Erëmiri, e quando completou doze anos foi levado por seu pai Ahkïto para estudar no internato de Pari Cachoeira. Seguiu a veia intelectual da família, sendo um dos melhores alunos, tornando-se professor e inclusive sendo convidado a ser seminarista. Ao completar a maioridade prestou serviço militar trabalhando como ajudante da enfermaria e testemunhou as violências sofridas pela população indígena da região. Ao terminar seu serviço decidiu estudar medicina e recebeu apoio para viajar ao Maranhão para realizar seu sonho.

Saindo da região do Rio Negro entendeu que o genocídio dos povos indígenas era uma realidade em toda a região amazônica e no Brasil. Tornou-se militante na defesa dos direitos indígenas, estimulado por seu pai Ahkïto a defender nossos povos e culturas tradicionais. Por isso em 1980 foi ao tribunal internacional Bertrand Russel em Rotterdam, unto com seu companheiro Mário Juruna para denunciar a Igreja Católica e a Missão Salesiana pelo crime de genocídio e etnocídio cultural dos povos do Alto Rio Negro. Doéthiro se apresentou como testemunha no processo que julgou a missão Salesiana culpada, criando grande constrangimento internacional. O tribunal de Rotterdam resultou na retirada do apoio financeiro da Santa Sé aos internatos salesianos, que foram transformados em escolas comuns.

A denuncia sobre as violações aos direitos humanos dos povos indígenas causou grandes conflitos políticos no Rio Negro, em particular contra nossas famílias que foram ameaçadas, difamadas e perseguidas pelos padres que impediram meus tios de prosseguir com seus estudos.

Ahkïto decidiu sair da aldeia São Francisco e fundou junto com Doéthiro a aldeia Balaio em 1975, próxima ao município de São Gabriel da Cachoeira, para reorganizar um recomeço para revalorizar as tradições que foram combatidas pelos missionários.

Durante a década de 1980 Ahkïto participou ativamente de todas as reuniões que resultaram na criação das organizações indígenas do Alto Rio Negro. Doéthiro se dedicou à articular a formação do movimento indígena brasileiro, participando ativamente das reuniões de lideranças indígenas, sendo um dos primeiros presidentes da União das Nações Indígenas e coordenando junto com lideranças de outros povos a construção dos direitos indígenas promulgados pela constituinte de 1988.

Doéthiro permaneceu em Brasília desde a constituinte lutando pela demarcação da Terra Indígena Balaio que foi homologada em 2009, som a orientação de seu pai Ahkïto deu continuidade aos estudos dos conhecimentos tradicionais, escrevendo juntos a história de nosso Clã e de nosso povo.

Ahkïto, Kumu, rezador e Bayá, mestre de cerimônia, grande musico, intelectual, historiador educou seus filhos e netos para se tornarem professores, mestres de saberes e defensores dos direitos indígenas e de nossas tradições. Testemunhou a criação e o fim dos internatos salesianos, a primeira e segunda guerra mundial, a ditadura militar e os crimes do SPI, participou da criação do movimento indígena no Rio Negro e acompanhou o processo constituinte. Colaborou com muitos pesquisadores e universidades para manter viva a cultura do povo Yepá Mahsã inspirando gerações.

Extremamente lúcido aos 110 anos ainda ensinava seus filhos sobre as historias antigas da criação do povo Yepá Mahsã Tukano, cantava, rezava, tocava cariçu, dava conselho e contava piada.

Como curandeiro salvou muitas vidas. Conhecedor das rezas e das plantas medicinais enfrentou a primeira onda de Covid19 aos 110 anos de idade, rezando e curando muitas pessoas de sua comunidade.

Ahkïto faleceu de Covid19 dia 6 de novembro de 2020 as 16h na aldeia que fundou. Partiu deixando um legado de amor, humildade, dignidade, dedicação e defesa da liberdade. Nos confiou a missão de reconstruir as Malokas e manter vivas as tradições.

Seu espírito pegou a canoa até a Maloka do céu para se encontrar com seu pai Erëmiri, sua esposa Diakarapó e demais familiares. O céu esta em festa recebendo Ahkïto num grande dabacuri.

É com enorme sentimento de gratidão à vida e memória de meu avô que compartilho um pouco da historia de nossa família, para que as gerações seguintes possamos continuar reunidas seguindo a cultivar os sonhos de nossos avôs e sigamos remando na canoa da transformação.

Añû.

FONTES

Foto em Destaque: Arquivo pessoal de Daiara Tukano.

Fotos da Galeria: Instituto Socioambiental (ISA); (IDEM); (IDEM); (IDEM); Daiara Tukano; (IDEM); (IDEM); (IDEM); (IDEM).

Homenagem publicada em Carta Capital
https://www.cartacapital.com.br/opiniao/ahkito-vida-e-luta-de-um-mestre-yepa-mahsa/

Colaboração: Felipe Milanez – Jornalista, UFBA  (Salvador/ BA).

Gerson Souza Melo, 58

Pataxó Hãhãhãe

Biografia construída por Jurema Machado, professora do Centro de Artes, Humanidades e Letras da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e presidente do conselho diretor da Associação Nacional de Ação Indigenista (Anaí)*

 

Uma das mais longas e árduas lutas territoriais dos povos indígenas no Brasil, a retomada da terra Indígena Caramuru Paraguaçu, na Bahia, perdeu um de seus maiores líderes, Gerson Souza Melo, vítima da Covid-19. A tragédia chega a um momento onde a epidemia está falsamente controlada no Brasil, mas ainda não somente muito mortal, como provocando impactos profundos nos povos indígenas. Gerson Pataxó deixa um legado de luta que entra para a história.

O que constitui um grande líder indígena? A sua capacidade de entrega na luta? O conhecimento detido da cultura, da tradição e do território? A preocupação com o registro da história do seu povo? A articulação com outros povos e outras lutas? Pois Gerson Pataxó tinha todas estas características, e mais a permanência constante junto a seu povo e o acompanhamento incessante dos acontecimentos que ocorrem cotidianamente em suas comunidades.

Certos acontecimentos, que muitas vezes possam passar despercebidos, e serem, supostamente, de âmbito estritamente doméstico, podem provocar alterações profundas na vida dos povos. Um líder precisa ser vigilante. E foi em uma dessas situações, em mais de 20 anos de relação com os povos indígenas, que conheci Gerson Souza Melo, em maio de 1999, na sede do Ministério Público Federal, na cidade de Ilhéus, sul da Bahia. Meses antes, Gerson se encontrava muito atento às transformações que a saúde indígena vinha sofrendo com a “Lei Arouca” (nº 9.836/99), e promoveu, junto a outras lideranças do povo Pataxó Hãhãhãi, um diagnóstico de saúde das três aldeias (Caramuru, Bahetá e Panelão), que então compunham partes da Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu. Em função desse diagnóstico, Gerson e a comunidade tiveram dimensão da grande quantidade de mulheres esterilizadas nas comunidades, e a partir daí teve início um processo que trouxe alterações profundas na organização sócio política do povo Pataxó Hãhãhãi e reorientou a luta pelo território.

Esse nosso primeiro encontro na sede do MPF ocorreu em função dos depoimentos de algumas das mulheres esterilizadas no contexto de campanha política. Eu ambicionava pesquisar o ocorrido para a monografia de conclusão do meu bacharelado em Ciências Sociais, na Universidade Federal da Bahia. Como um grande líder, Gerson reconheceu que aquele meu interesse poderia fortalecer as denúncias e passamos dois dias conversando e combinando como poderia ocorrer a pesquisa. Ele era muito entusiasta das pesquisas e pesquisadores, incentivava e apoiava que os parentes muito estudassem e se tornassem cientistas, professores, médicos e historiadores do seu povo. Certa vez, permaneceu dias no Museu do Índio, no Rio de Janeiro, selecionando e lendo documentos do então Serviço de Proteção aos Índios sobre a Reserva Caramuru-Catarina Paraguaçu, interesse que despertou à equipe do Museu a publicação de um livro com textos analíticos sobre a documentação e resumos de todos os documentos. Era mais uma importante peça conquistada para comprovar o direito de seu povo à terra que reivindicava.

Gerson era do povo Pataxó Hãhãhãi, mas seu troco velho, sua etnia, como ele mesmo enfatizava, era Kariri-sapuyá. Família pela qual tinha muito orgulho e engendrava esforços para unir e registrar a trajetória, desde Pedra Branca, no Recôncavo da Bahia, até a Reserva Caramuru-Paraguaçu, conduzida pelo etnólogo Curt Nimuendaju, lá pelos idos de 1937.  Seu respeito pelos mais velhos e pela luta e persistência ancestral garantiram a ele a “voz da tradição”, qualidade que os Pataxó Hãhãhãi costumam referir a quem “sabe contar as histórias”, a quem “escutou os mais velhos”. Foi Gerson Souza Melo e sua prima, Ilza Rodrigues, hoje também cacique, que esforçaram-se para me fazer compreender o que seria a organização social que utiliza etnônimo englobante (Pataxó Hãhãhãi), mas que aciona a ênfase em etnias (Tupinambá, Gueren, Kariri-Sapuyá, Kamacã, Hãhãhãi, Baenã) por famílias ou famílias por etnias para marcar ações de luta – como as retomadas.

Olympio Serra certa vez fez uma analogia ao equivalente ocidental, sobre o papel desempenhado por Gerson junto ao seu povo, que seria algo como “primeiro-ministro”, ou alguém que está dentro e está fora, também, no papel de representação. Papel esse que obteve justo reconhecimento externo ao ser homenageado com o Prêmio de Direitos Humanos, ainda no ano 2000. A dor sentida por estar em Brasília, na companhia do primo Galdino Jesus dos Santos, quando este foi assassinado, em 1997, queimado vivo em Brasília, acentuou seu senso de justiça e pressão sobre o Estado Brasileiro. Ele por vezes narrava sobre os tensos encontros com o presidente Fernando Henrique Cardoso, que sempre fazia certas ironias com as lideranças indígenas, sugerindo que cada líder só estaria interessado na demarcação de seu território. Certa vez, Gerson escutou dele “você só quer a demarcação dos Pataxó?”, no que ele retrucou, “o senhor precisa respeitar os índios do Brasil”.

“Eu vi a luta desde pequeno”, dizia ele. Desses tempos de pequeno guardava na memória, a reunião dos parentes na casa de seus pais, ambos já falecidos, Egídia Trajano e Diogo Souza Melo, estrategicamente escolhida para ser o local de encontro do Grupo Luta pela Terra, criado em 1974, quando Gerson tinha ainda 12 anos de idade. Cresceu, também, tendo muita consciência que a luta dos índios é possível e resistente porque dela participa um conjunto de seres encantados, humanos e não humanos. Não deixava de referir ao tio, irmão de Egídia, que envultava, aparecia e sumia, como uma forma de confundir o inimigo. Da sua convivência e parentesco com outros líderes mais velhos, a exemplo de Samado Santos e Desidério dos Santos, foi crescendo e entendendo a história que carregava e que ajudaria a construir.

O povo Pataxó Hãhãhãi muito se orgulha que sua luta para recuperar o território não tenha beneficiado apenas os indígenas. A cidade de Pau Brasil, por exemplo, uma das quais está localizada a terra indígena, foi fortemente impactada positivamente com a conquista dos índios, sua economia cresceu, o comércio prosperou e as relações interétnicas foram apaziguadas. Apesar do forte sentimento anti-indígena que predominou por décadas no município, os indígenas sempre pensaram em Pau Brasil como um lugar de circulação e presença deles, também, e talvez por isso tenham se preocupado, desde o final dos anos 1980, com a política local e como ela poderia lhes afetar. A criação do Partido dos Trabalhadores naquela cidade foi protagonizada pelos Pataxó Hãhãhãi, e nele fizeram vereadores, a exemplo do próprio Gerson.

A violência e perseguição imposta pelos inimigos lhe rendeu uma vida marcada pelas ameaças de assassinato e criminalização. Ele conseguiu escapar de dois cercos de pistoleiros que atiraram contra o carro em que se encontrava, e sobreviveu também a um sequestro orquestrado pelos mesmos inimigos, que lhe ofereciam terras e gado em troca da sua saída da luta e liderança do povo Pataxó Hãhãhãi.

Em novembro de 1999, em viagem de retorno a aldeia, após participarem de uma sessão especial na Assembleia Legislativa da Bahia, em Salvador, Gerson e suas primas, Ilza Rodrigues e Margarida Rocha, foram surpreendidos com a interrupção da viagem no posto da Polícia Rodoviária Federal, em Itabuna. Lá estavam policiais militares do 150 Batalhão que prenderam Gerson, sob mandado do juiz da Comarca de Pau Brasil, Antônio Cândido Garcia de Oliveira. A acusação que pesava sobre ele era a de uma suposta tentativa de homicídio a um fazendeiro, em 1994. Surpreendentemente, ao interpor mandado para o pedido de Habeas Corpus, a FUNAI se deu conta de que o pedido fora expedido às 7:15 da manhã, enquanto a prisão havia sido efetuada às 6:00. O MPF conseguiu que Gerson permanecesse custodiado pela Polícia Federal, em Ilhéus, mas nem ele, e nem eu, nos recordamos de quantos dias ficou encarcerado. Talvez quatro ou cinco dias. Após essa, ele enfrentou ainda outras tentativas de criminalização de sua luta.

Mas, em contexto de genocídio, os indígenas que conseguem sobreviver aos conflitos, podem não sobreviver aos impactos de uma nova doença e ao descaso com a saúde indígena por parte de um governo racista e por si só, adoecedor. Gerson, que nasceu em 12 de janeiro de 1962, cresceu em Pau Brasil vendo a terra do seu povo invadida, mas acompanhando a determinação de seus mais velhos em reavê-las. Ele, que lutou o bom combate para sua reconquista e pôde comemorar a expulsão de cada invasor e algoz da sua terra, não resistiu aos efeitos da Covid, uma pandemia que no Brasil se fortalece com contornos mais sofisticados de descaso e crueldade.

Nesses mais de 20 anos de amizade e relação, falamos em medos, expectativas, certezas, tristezas e muitos planos, mas nunca falamos em morte. Muito embora sempre fosse uma certeza, obviamente, especialmente quando víamos a partida de tantos mais velhos, achávamos que a dele, e a minha, não seria para tão cedo. Desses seus muitos planos, estava a construção de um memorial indígena no Caramuru, que abrigasse tanto os documentos e objetos de memória do povo Pataxó Hãhãhãi, bem como, as duas urnas funerárias que foram retiradas para estudo, do sítio arqueológico Água Vermelha, uma das regiões da terra indígena Caramuru-Paraguaçu.

Gerson foi a primeira liderança indígena que me aproximei, e foi em casa sua, de Selma — sua esposa — e de seus quatro filhos — e agora sete netos — que, em julho de 1999, vivenciei a minha primeira experiência de trabalho de campo. Eles têm uma importância imensa na minha formação como antropóloga e como pessoa, pois mais da metade da minha vida é de conhecimento com eles.

No dia de sua morte, 15 de outubro de 2020, muito impactada pela surpresa do acontecimento e avassaladora tristeza, escutei de uma amiga a sugestão que colocasse a tristeza para fora escrevendo um conto que entrelaçasse a casa de Gerson como um lugar de potência para mim, e a casa de Egídia com o um lugar de potência para os Pataxó Hãhãhãi. Não sei se sou capaz disso, mas quero registrar aqui o quanto uma casa é abrigo. Gerson morreu de forma muito precoce, mas agora estará sempre em casa, como preconizaram seus antepassados.

* Publicado originalmente em “Pensar la Pandemia – Observatorio Social del Coronavirus”. Artículo enviado por el Grupo de Trabajo CLACSO Ecologías políticas desde el Sur/Abya Yala.

Vejam um pequeno vídeo do cortejo fúnebre: https://www.facebook.com/wagner.galo.5/videos/371994974154000

FONTES

Foto em Destaque: Reprodução//Arquivo Pessoal (Via Jurema Machado)

Fotos da Galeria: Reprodução//Arquivo Pessoal (Via Jurema Machado); (IDEM); (IDEM); Reprodução//Arquivo Pessoal (Via Página Facebook Gerson Pataxó); Reprodução//Arquivo Pessoal (Via Jurema Machado); (IDEM); Urbino Brito (Via Reprodução//Facebook de Valmir Assunção Lula da Silva); Antonio Cruz (Via EBC); Reprodução// Facebook de Olinda Yawar Muniz Wanderley; Antonio Cruz (Via EBC); Reprodução//Facebook de Luiz Carlos Lula Suíca; Reprodução//Facebook de Cláudio Magalhães Tupinambá; Antonio Cruz (Via EBC); Reprodução//Facebook de Josivaldo Dias; Reprodução//Facebook de Jurema Machado; Pintura de Arissana Pataxó.

CLACSO
https://www.clacso.org/gerson-souza-melo-cacique-dos-pataxo-hahahai-morre-por-covid-19/ 

Reprodução//Arquivo Pessoal (Via Página Facebook Gerson Pataxó)

https://www.facebook.com/gersonpataxo/photos/133687387079037

Urbino Brito (Via Reprodução//Facebook de Valmir Assunção Lula da Silva)

https://bityli.com/lJOph

Antonio Cruz (Via EBC)

http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/galeria/2003-02-14/14-de-fevereiro-de-2003

Reprodução// Facebook de Olinda Yawar Muniz Wanderley

https://bityli.com/liPh9

Reprodução//Facebook de Luiz Carlos Lula Suíca

https://bityli.com/37bVY

Reprodução//Facebook de Cláudio Magalhães Tupinambá

https://bityli.com/k1FdV

Reprodução//Facebook de Josivaldo Dias

https://bityli.com/rcyuz

Colaboração: Felipe Milanez  (Jornalista, UFBA – Salvador/ BA)

Raimundo Suruí, 54

Suruí Paiter

Raimundo Suruí, 54 anos, pertencente ao povo indígena Paiter Suruí. Vivia junto de seu povo Paiter, que significa “gente de verdade, nós mesmos”, na Terra Indígena (TI) Sete de Setembro, banhada pela bacia do rio Branco, Rondônia. Atuava como Agente Indígena de Saúde (AIS) da aldeia Lapetanha, em uma das três Unidades destinadas ao cuidado em saúde na TI.

Raimundo faleceu em agosto de 2020, mesmo mês em que também faleceram seus parentes Iabibi Suruí, Renato Suruí e Fábio Suruí. Integrantes do Distrito Sanitário Especial Indígena reforçaram o quanto Raimundo foi “um guerreiro” e “importante membro” para sua comunidade.

FONTES

Foto em Destaque: O Rondoniense
Fostos da Galeria: O Rondoniense; Reprodução//Facebook Página “Os Paiter Suruí”; Reprodução//Facebook Página “Associação Metareilá”.

O Rondoniense

Disponível em: https://orondoniense.com.br/mais-um-indigena-da-etnia-paiter-surui-morre-por-covid-19/. Acesso em: 17 de outubro de 2020.

Os Paiter Suruí

https://www.facebook.com/OsPaiterSurui/posts/815554928982787 

https://www.facebook.com/OsPaiterSurui/photos/a.498931783978438/815772918960988

https://www.facebook.com/OsPaiterSurui/photos/a.498931783978438/815773012294312

Associação Metareilá
https://www.facebook.com/paitersurui/posts/3404476932951041 

 

Colaboração: Érica Dumont / Enfermagem e FIEI – FaE, UFMG – Belo Horizonte/MG.

Guilherme Felipe Valério, 93

Terena

Guilherme Felipe Valério, 93 anos, liderança indígena do povo Terena, uma das uma das maiores populações indígenas do Brasil. Falante da língua Aruak, Guilherme morava na aldeia Jaguapiru, no município sul-matogrossense de Dourados, desde1961.

Guilherme, que sempre participou de diversos movimentos de lutas dos povos indígenas, foi liderança respeitada em todo país. Importante defensor da educação, era ela a pessoa que reunia a comunidade e contava histórias da tradição. Em entrevista ao Dourados Agora, em 2015, ele lamenta e também nos deixa um apelo: “Nossa história está desaparecendo, se modificando. Tenho sobrinhos que moram em São Paulo, casados com brancos, e quase nem falam mais a língua terena”, reforçando a importância de manter viva a língua materna.

Pai de nove filhos e marido de Maurícia Mariano, contraiu o novo Coronavírus junto de sua esposa e outros três filhos. Morreu no dia 21 de agosto de 2020 e pode ser sepultado no cemitério da Terra Indígena.

 

Fórum permanente de cultura de Dourados (MS), registrou:

 


“É com muita tristeza que o Fórum permanente de cultura de Dourados compartilha a notícia do falecimento de Guilherme Felipe Valério, liderança indígena terena e Maurícia Mariano, sua esposa, vítimas do Covid-19. Ambos residiam na reserva indígena Jaguapiru de Dourados MS. Guilherme Felipe Valério faleceu no dia 21/08 aos 93 anos e Maurícia Mariano, faleceu no dia 22/08, aos 86 anos.

O Fórum permanente de cultura se solidariza com os familiares e com a comunidade de Jaguapiru pela perda irreparável para os povos indígenas do Mato Grosso do Sul.”

 

Carlene Rodrigues, registrou:

 

“Não tenho palavras para agradecer a sua bondade dia após dia, nos ensinando e sendo exemplo de pessoa com o coração enorme cheio do amor e sabedoria de Deus, desde a minha infância presenciei os teus ensinamentos sempre dizendo que Jesus está voltando, que temos que estar preparados para o lar celestial e agora, não vamos mais ouví-lo contar suas histórias reais o que passou para levar a palavra do Senhor, que se manteve firme, que deixou a sua terra, seu povo Terena e veio morar em um barraco no meio da mata e onças para falar do amor de Deus a nós, indígenas Guarani Kaiowá e Guarani Ñandeva.

Seu Guilherme Felipe Valério deixou o seu legado e muitos o ouviram, plantou a sementinha em nossos corações que possamos cultivá-la para estarmos todos juntos com ele, porque um dia iremos também! Que o espírito santo de Deus nos conforte e permaneça com cada um de nós que o conhecemos e tivemos o privilégio em ouvirmos o servo do Senhor!

Sentiremos muitas saudades de suas histórias, brincadeiras, de suas orações que sempre no final finalizavam com um amém firme e forte! seus cânticos, conselhos, puxões de orelha, nos alertando sempre sobre tudo, tudo havia de ser perfeito, pois dizia: – somos soldados de Cristo! Vamos obedecer o nosso comandante! E, a sua maior preocupação era a chegada do natal, os preparativos dos ensaios do coral, ensaios da peça do teatro, ensaios das crianças para as apresentações. Sentiremos muitas saudades do senhor em tudo, seus cumprimentos a todos na igreja em guarani “mbaeixapa”, em inglês “good morning”, em Terena “unaiti” e no final de cada culto sempre agradecia a nós indígenas kaiowá-guarani, falando em guarani: “Atimã Porã, Ñanderajá tae’nde rovasá”! Que quer dizer: “Muito obrigado, Deus te abençoe”!

Pois eu digo:
Atimã porã! Por tudo que tem nos ensinado, sabemos que estás nos braços do Pai.”

 

FONTES

Foto em Destaque: Vídeo da Prefeitura de Dourados nos 80 anos da cidade.
Fotos Galeria: Prefeitura de Dourados; Jornal o Progresso; Goretti Mattoso; Homero Torres; Ronildo Jorge Valério; “A origem do povo Terena”, mito contado pelo seu Guilherme, retirado do site do LABHEI; Ronildo Jorge Valério; Ronildo Jorge Valério; Página do Facebook Guateka Marçal de Souza; Carlene Rodrigues; Página do Facebook Beleza Indígena de Dourados; Ronildo Jorge Valério; Carlene Rodrigues; Aguilera de Souza; Aguilera de Souza; Aguilera de Souza.

Dourados Agora. Disponível em: https://www.douradosagora.com.br/noticias/dourados/lideranca-indigena-guilherme-morre-aos-93-anos-com-coronavirus. Acesso em 17 de outubro de 2020.

Fórum permanente de cultura de Dourados (MS)

https://www.facebook.com/fpcdms/photos/a.1421653724819365/2670601029924622

O Progresso
https://www.progresso.com.br/variedades/pets/educacao-e-o-futuro-dos-indios-diz-terena-radicado-em-dourados/97398/

https://www.progresso.com.br/variedades/bebes-e-criancas/poesia/289368/

Aguilera de Souza
https://bityli.com/k9h6r 
https://bityli.com/Z4aeU
https://bityli.com/n3YAL

Guateka Marçal de Souza
https://www.facebook.com/photo?fbid=1435834796605273&set=a.444978092357620 

Ronildo Felipe Valério

https://bityli.com/On7Xf

https://bityli.com/Kjw4T

https://bityli.com/Fq0SC

Beleza Indígena de Dourados
https://bityli.com/VNqtn

Carlene Rodrigues
https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=2683110568613164&id=100007427415931

 

Colaboração: Érica Dumont / Enfermagem e FIEI – FaE, UFMG – Belo Horizonte/MG.