Lucio Paiva Flores, 66

Terena

Lúcio Paiva Flores, Terena, tinha 66 anos, nasceu em 22 de Maio de 1954, na Aldeia Jaguapiru, na Reserva Indígena de Dourados, Mato Grosso do Sul (MS). No último domingo (10/01/2021), infelizmente, veio a falecer em decorrência das complicações advindas da Covid-19. Importante liderança não só entre os Terena e demais povos do MS, bem como para o movimento indígena em escala nacional, trabalhava há cinco anos na Assessoria do Controle Social da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) – desse modo, atualmente, morava e trabalhava em Brasília.

Lúcio Flores, era graduado em Ciências Sociais, mestre em Ciência das Religiões, escritor, teólogo (pastor) e com larga experiência em Serviço Social. Autor do livro “Adoradores do Sol: reflexões sobre a religiosidade indígena”. Foi um grande defensor não apenas da saúde indígena, bem como da biodiversidade da fauna e flora nativas do território brasileiro, travando uma luta contra biopirataria, sobretudo, na região da Amazônia. Lutou pela inserção dos povos indígenas nas universidades públicas e, para além de tudo disso, tinha um exímio conhecimento sobre várias plantas medicinais utilizadas pelos povos indígenas amazônicos. Por muitos anos foi liderança indígena e política pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e representou, em várias ocasiões, o Brasil e os povos indígenas na Organização das Nações Unidas (ONU), sendo reconhecido pelo movimento indígena nacional como um diplomata nato, sempre sereno e comprometido com as pautas da luta indígena.

Era conhecido carinhosamente como “seu Lucio Terena” e deixou um grande legado para o Brasil e para a luta indígena tendo colaborado ativamente com a discussão e a construção de diversas políticas públicas etnicamente diferenciadas, tais como a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI) e a Política Nacional de Saúde Indígena. Atuou em diversas frentes de mediação de conflitos e fez parte da assessoria do Departamento Etnoambiental da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia (COIAB) e coordenou o Centro Amazônico de Formação Indígena (CAFI).

Seu Lucio Terena era casado com dona Matilde Madicai (Kurâ-Baikari) com quem teve um filho, Lucio Yeruá. Em seu rede, Lucas Yeruá, relembra a difícil perda de seu avô (pai de seu Lúcio): “Quando ele [avô] se foi, meu mundo caiu pela primeira vez, senti a dor desse mundo, mas com todos os ensinamentos dele e com força de todos me fortaleci e segui em frente”. Em seguida, também traduziu, em poucos e belas palavras, todo o sentimento que o Brasil indígena e indigenista expressou sobre seu Lúcio Flores: “ele era respeitado por todos os lugares e por todas as etnias aonde ia, sempre existia uma pessoa que o conhecia e sabia da história dele. Sempre  muito confiante de tudo e de si, via ele como uma inspiração, sempre contando histórias de viagens e reuniões, pelo Brasil e mundo afora. Sei muito bem o tipo de homem que ele era, uma liderança indígena, um professor, um pastor e um belo pai…”

Antes do segundo casamento, seu Lucio Flores foi casado com dona Maria Eva Moreira, com quem teve duas filhas Juliene Paiva Flores e Luciene Flores. Foi mais ou menos nessa época que ele também se converteu ao presbiterianismo e viu sua trajetória alçar voos que até aquele momento não imaginava. Nas redes sociais, Juliene ressalta o orgulho de ser filha de Lucio Flores e sublinha: “Meu pai sempre foi respeitado pela sua liderança e articulação indígena.”

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e estatística (IBGE), o estado do Mato Grosso do Sul abriga a segunda maior população indígenas do país. O site do Instituto Sociambiental (ISA) afirma que a população Terena é bastante numerosa:

“Com uma população estimada em 16 mil pessoas em 2001, os Terena, povo de língua Aruák, vivem atualmente em um território descontínuo, fragmentado em pequenas ‘ilhas’ cercadas por fazendas e espalhadas por sete municípios sul-matogrossenses: Miranda, Aquidauana, Anastácio, Dois Irmãos do Buriti, Sidrolândia, Nioaque e Rochedo. Também há famílias terena vivendo em Porto Murtinho (na TI Kadiweu), Dourados (TI Guarani) e no estado de São Paulo (TI Araribá). […] Os Terena, por contarem com uma população bastante numerosa e manterem um contato intenso com a população regional, são o povo indígena cuja presença no estado se revela de forma mais explícita, seja através das mulheres vendedoras nas ruas de Campo Grande ou das legiões de cortadores de cana-de-açúcar que periodicamente se deslocam às destilarias para changa, o trabalho temporário nas fazendas e usinas de açúcar e álcool.”

Graziele Acçolini, etnóloga especialista na temática do povo Terena, registrou em um artigo que as religiões cristãs são predominantes na região. Sobretudo a religião protestante, em vertente pentecostal, possui importância notável no universo simbólico e religioso dos Terena, e se tornou elemento integrante daquela sociedade.

 

Lucas Yeruá, filho de seu Lúcio Terena, registrou:

 

Com todos esses anos de vida mesmo que pouco, sempre pensei que teria essas duas pessoas, esses dois professores, esses dois orgulhos, na minha vida.

Mas tudo tem um começo, meio e fim. Dedico está mensagem à esses dois melhores pais que tive, eles me ensinaram a andar, conversar e a viver, mas o melhor de tudo, me orgulharam. Eu sei que posso não ter sido o melhor Neto e melhor filho mas esses dois me fizeram passar por melhores momentos da minha vida.

Primeiramente meu vô que desde antes de eu nascer, já queria me dar tudo de bom, cuidava de mim com todas as forças. Me ensinava sobre a história de nosso povo mesmo que as vezes achando chato eu sempre escutava com o maior respeito e atenção, ele tinha um respeito muito grande pela nossa comunidade. Levávamos para lugares incríveis para que pudesse aproveitar e retribuir tudo que ele nos deu. Quando ele se foi, meu mundo caiu pela primeira vez, senti a dor desse mundo, mas com todos os ensinamentos dele e com força de todos me fortaleci e segui em frente.

Com o passar do tempo meu pai se tornou o pilar da família, era nele que depositavamos todos as nossas forças, escolhas e confianças, ele era respeitado por todos os lugares e por todas as etnias onde ia, sempre existia uma pessoa que conhecia ele e a história dele, sempre confiante de tudo e de si, via ele como uma inspiração, sempre contando histórias de viajens e reuniões, pelo Brasil e mundo afora. Sei muito bem o tipo de homem que ele era, uma liderança indígena, um professor, um pastor e um belo pai, que mesmo nos desentendo as vezes nunca nos separávamos, como ele mesmo dizia “somos amigos” e essa amizade estará comigo para o resto da vida.

Sei que tenho uma responsabilidade enorme por ser filho dele, em todos os lugares do Brasil ele tinha uma história, mas aprendi várias coisas com ele, o resto terei que aprender com o passar do tempo, tenham paciência ainda tenho 17 anos não quero ocupar nem substituir o lugar dele vou conquistar o meu com ajuda desses dois pilares da família

Mas hoje tenho que cuidar de quem está comigo e precisa da minha ajuda, minha mãe, irmãs, tia, e vó, além de uma sobrinha muito linda. Ainda não tenho forças suficiente para ser o pilar da família mas nos uniremos e seguiremos em frente sem arrependimentos. Uma vez ouvi uma frase muito significativa: “uma pessoa não morre quando perde sua vida, ela morre quando é esquecida”. Então eles ainda estão vivos enquanto não esquecermos.

Obrigado por tudo meus dois pais.

 

Matilde Madicai, esposa de seu Lúcio Terena, complementou o filho e registrou:

 

Força filho, sei que o momento que estamos passando e muito dolorido e triste de saudades, mas ficaram muitas lembranças boas e alegres que tivemos juntos. Seguiremos em frente com a cabeça erguida, com todo o ensinamento que eles deixaram para nós. Eles sempre estarão em nossos corações.

 

Juliene Paiva Flores, filha de seu Lucio Terena, registrou:

 

Meu pai sempre foi respeitado pela sua liderança e articulação indígena.

Em casa ele sempre foi um cara engraçado, se achava o gatão, lindão, magrão, lutador de boxe (no aquecimento para o banho), gostava de deitar no chão depois do almoço pra cochilar conosco, andava de mãos dadas comigo, era um amante da natureza e das pescarias, amava viajar, pé descalço sempre…

Era uma alma livre, não suportou ficar preso a uma cama e a um respirador, se libertou como sempre fez, resolveu voar…

Vai pai, voa mais alto e mais longe!

E daí, onde estiver, levanta novas lideranças, inspire novos desafios, nos veremos em breve.

E que o Grande Itukoóvit te receba.

 

Rafael Pereira Brito, sobrinho de seu Lucio Flores, registrou:

 

É com tristeza que recebo hoje a notícia de falecimento por Covid-19 da liderança indígena Lúcio Paiva Flores, do povo Terena, a quem nunca deixei de me orgulhar, inspirar e, tão pouco, chamar de tio.

Nascido na Aldeia Jaguapiru, na Reserva Indígena Federal de Dourados, em Mato Grosso do Sul, Lúcio Flores era graduado em Ciências Sociais e mestre em Ciência das Religiões.

Defensor da biodiversidade da floresta amazônica detinha um conhecimento aprofundado das plantas medicinais utilizadas pelas tribos da Amazônia. Lutava pela inserção indígena nas universidades públicas e atuava assiduamente contra a biopirataria no Brasil.

Liderança indígena e política pelo Partido dos Trabalhadores (PT) representou o Brasil na ONU em diversas oportunidades, compôs a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e mais recentemente a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) onde atuava na linha de frente pela proteção dos povos indígenas durante a pandemia.

Lúcio estará com seu Nhanderu e nós com seu legado.

“Para nós, a majestade dos templos não está na imponência das suas construções ou nos seus detalhes artísticos, mas na serenidade dos nossos templos naturais: as matas, os rios, as cachoeiras, as montanhas. A nossa fé e prática religiosa se evidenciam diante da natureza, nos seus muitos mistérios e magias nos quais nos banhamos e nos aprofundamos”  (O Mundo dos Separados – Lúcio Flores Terena).

 

Rocky Ribeiro, sobrinho de seu Lúcio Flores, registrou:

 

Hoje o sol não brilhou, os pássaros não cantaram, os risos se calaram e as lágrimas rolaram em meu rosto…

meu coração sofre em silêncio ao saber que perdemos um guerreiro.

Vivenciou uma boa luta em sua jornada. O amor reinará para sempre e o carinho por ti também!

Luto, perdi meu tio.

Saúde Indígena em luto.

 

Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), registrou:

 

A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) informa e lamenta profundamente o falecimento de nosso parente Lúcio Terena, ocorrido na noite deste domingo (10), em Brasília (DF), em decorrência da Covid-19.

“Seu Lúcio Terena”, assim chamado carinhosamente por nós, parente do povo Terena, da Terra Indígena Jaguapiru (MS), era escritor, teólogo, sociólogo e mestre em Ciência da Religião. Esteve conosco e com outras organizações indígenas em muitas lutas, era um diplomata nato. Cumpriu a missão e deixou legado, como a discussão e construção da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI), assessorou o Departamento Etnoambiental da COIAB, coordenou o Centro Amazônico de Formação Indígena (CAFI), concorreu a Vice Coordenação da COIAB em 2013 e, atualmente, trabalhava na Assessoria do Controle Social da SESAI, em Brasília.

Estendemos nossos mais sinceros sentimentos a todo povo Terena, a sua esposa Matilde Bakairi, seus familiares e amigos.

Nossa gratidão ao nosso GRANDE e INESQUECÍVEL GUERREIRO, SEU LÚCIO TERENA!

 

Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), registrou:

 

Nota de Pesar

A APIB está de Luto. Morreu no ultimo domingo, 10 de janeiro do corrente, vítima da Covid – 19, aos 66 anos, o líder Lício Paiva Flores. Lúcio Terena, como era mais conhecido, nasceu na aldeia Jaguapiru, no Estado Mato Grosso do Sul. Sociólogo e Mestre em Ciências da Religião, nos anos 90, morando em Cuiabá, estado de Mato Grosso. Fez parte da Diretoria do Conselho de Missão entre Índios (COMIN), depois mudou-se para Manaus – AM, onde trabalhou no Centro de Formação e no Departamento Etnoambiental da COIAB. Nos últimos 5 anos trabalhava, em Brasília, na Assessoria de Controle Social da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI).        

Lúcio teve valiosas contribuições ao movimento indígena. Destacamos, dentre elas, a sua participação nas lutas que povos, organizações e lideranças indígenas enfrentaram para tornar realidade a criação, em 2010, da SESAI, e na formatação e execução do Projeto Gestão Ambiental de Terras Indígenas (GATI) iniciativa que visava impulsionar, depois, a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental das Terras Indígenas (PNGATI).      

A APIB, que perde mais um de suas lideranças para o Novo Coronavirus, manifesta a todos os familiares de Lucio Terena as suas condolências e solidariedade fraterna. E que o Pai Tupã os conforte. Descansa em paz querido Lúcio Terena.              

Brasília, 11 de janeiro de 2021.

 

Marciano Rodrigues, coordenador da Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (Arpin-Sul), registrou:

 

A Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul comunica e lamenta profundamente o falecimento do grande companheiro de luta, LÚCIO FLORES TERENA

Lúcio Terena foi um grande articulador de defesa dos direitos indígenas e um apoiador incondicional das organizações de base, entre elas a nossa Arpinsul. Sempre nos orientou e auxiliou no fortalecimento institucional e muitas ações voltadas às políticas públicas, principalmente às de desenvolvimento ambiental sustentável, gestão ambiental e territorial. Sua sabedoria sempre incidiu nas temáticas que deram caminhos para a autonomia e voz das populações indígenas.

Nós Povos do sul estamos muito triste com essa notícia da partida tão precoce do nosso guerreiro.

Mas fica um legado em nossas vidas sua importante passagem aqui nesta terra, e marcado em nossos espíritos sua mensagem de paz para continuarmos seguindo o caminho de amor e defesa dos nossos direitos.

Valeu companheiro Lúcio Terena.

Um dia todos encontraremos na Terra Sem Males!

 

Uma Gota no Oceano (RJ), registrou:

 

A nossa natureza perdeu mais um guardião. 

Lúcio Flores Terena, mais conhecido como “Seu Lúcio”, morreu na noite deste domingo (10), em Brasília (DF), em decorrência da Covid-19. Parente do povo Terena, da Terra Indígena Jaguapiru (MS), Lúcio era escritor, teólogo, sociólogo e mestre em Ciência da Religião. Ele conquistou o diploma lá na década de 1990, desbravando novos rumos para o seu povo e servindo de exemplo e legado. 

Suas contribuições para os povos indígenas do Brasil são diversas. Podemos destacar a atuação na Diretoria do Conselho de Missão entre Índios (COMIN); no Centro de Formação e no Departamento Etnoambiental da Coiab Amazonia; e na Assessoria de Controle Social da Sesai • Secretaria Especial de Saúde Indígena, onde trabalhou nos últimos 5 anos. 

Mais do que uma liderança atuante pelos direitos do seu povo, Lúcio era um museu vivo de conhecimento ancestral que sucumbiu à pandemia. Uma perda de patrimônio cultural e ancestral em um momento de descaso das autoridades competentes na proteção aos povos tradicionais. 

A equipe Uma Gota No Oceano reverencia Seu Lúcio, e conforta, mesmo à distância, familiares e amigos que sentem esta grande perda. Todos nós perdemos. 

 

The Nature Conservancy Brasil, registrou:

 

Com pesar, lamentamos o falecimento de Lúcio Flores, importante liderança indígena do povo Terena que lutou ativamente na construção da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental das Terras Indígenas (PNGATI).

Lúcio trabalhou na TNC Brasil entre 2007 e 2011, coordenando a estruturação e implementação do Centro Amazônico de Formação Indígena (CAFI), em parceria com a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB). Seu trabalho dentro e fora da TNC foi essencial para ajudar a fortalecer jovens lideranças e instituições indígenas da Amazônia e de todo o Brasil.

Estendemos nossos sentimentos aos familiares e amigos de Lúcio, assim como ao povo Terena e às comunidades indígenas que sofrem com a perda de mais uma grade liderança em consequência da pandemia da COVID-19.

 

Henyo T. Barretto, antropólogo e professor da UNB, registrou:

 

Nossas vidas estão todas por um fio.

Depois da acachapante notícia do Marcos Guevara, hoje soubemos do falecimento, igualmente por Covid, ontem à noite, aqui em Brasília, do queridíssimo e sereno Lucio Flores Terena, cuja trajetória de incidência e luta política em defesa dos direitos indígenas, e da materialização destes em políticas públicas é tão gigantesca, que não cabe em uma postagem.

Abaixo uma foto/lembrança na qual ele aparece à direita, ao lado de Maurício Gonçalves Guarani, Romancil Kretãkaingang Kaingang e Iara Vasco Ferreira, em um painel no qual narraram a história da construção da PNGATI para uma turma de indígenas e servidores públicos da Mata Atlêntica sul/sudeste na ACADEBio – Academia Nacional da Biodiversidade; e a nota de pesar da SESAI, que nos tranquiliza em relação às tratativas relativas ao traslado do corpo.

Tristeza e dor imensas para todos que convivemos e trabalhamos com ele, testemunhas do seu saber e da sua serenidade.

A Matilde Madicai e seus filhos, meus mais sinceros sentimentos e forte abraço solidário, e para todo o povo Terena, junto ao qual será sepultado.

 

Luciane Ouriques Ferreira, antropóloga, registrou:

 

Gente… não dá pra acreditar numa coisa dessas!

Sinto muito, meu amigo Lucio Flores! Que tua partida para a aldeia dos teus ancestrais, seja leve!

Força aos parentes e ao povo Terena!

 

Alexandre Goulart, antropólogo, registrou:

 

Nosso querido Lucio Flores Terena faleceu em Brasília vítima de Covid-19.

Uma perda para sua família, para o povo Terena, seus amigos e colegas e para o movimento indígena brasileiro e latino-americano.

Algumas lembranças da passagem deste colega querido por todos que tiveram a oportunidade de compartilhar de sua calma e conhecimento (na primeira foto, como nosso inesquecível amigo e colega Jorge Terena, outro gigante de sua etnia).

 

Leóson M. Silva, técnico de Enfermagem da DSEI-Dourados (SESAI), registrou:

 

Mais uma grande perda, um grande guerreiro, uma referência dentro do controle social, hoje LAMENTAMOS sua partida, desejo aos familiares muita força e que Deus conforte a todos, Lucio Flores descanse em Deus meu amigo, obrigado pelas orientações e apoio quando estava a frente na luta!

Que Deus o receba!

 

Kamuu Dan Wapichana, registrou:

 

Minha solidariedade ao povo Terena e à minha amiga Matilde Madicai, aos familiares e amigos.  Parente Lúcio Flores era liderança indígena que teve atuação em diversos momentos importantes do movimento indígena, entre eles destacando na elaboração e discussão da PNGATI, na COIAB em muitas organizações indígenas e por último na Sesai. Parente Lúcio é mais uma vítima da Covid-19, essa doença terrível que levou bons guerreiros.

Que os nossos ancestrais possam recebê-lo com suas honras. Que nosso criador conforte e fortaleça sua família sempre.

Kaimen manawyn, Lúcio Flores Terena!

 

Ewyryky Apurinã, registrou:

 

Querido Lucio, a primeira liderança mais antiga dos Terena que conversei quando cheguei em Brasília, no museu do índio, eu tinha meus 22 anos de idade. Depois juntos com outras lideranças seguimos para o CCB para nos hospedar. E durante a noite ele me contou muitas histórias de luta e principalmente da constituinte junto com meu tio Leôncio Apurinã, umas das lideranças que também fez parte da discussão da constituinte de 1988.

 

Patrícia Naiara Kamayurá, registrou:

 

Meus sentimentos ao Povo Terena, a esposa e familiares do Lucio Flores!

Covid-19 fazendo suas vitimas!!

Uma liderança que esteve no Controle Social na Sesai lutando em prol da Saúde Indígena!

 

Yura Ni-Nawavo Marubo, registrou:

 

Descanse em paz mestre, liderança e cacique Lúcio Terena, seu trabalho e legado em prol da formação indígena ficará em nossas memórias pra sempre. A política nacional em defesa dos povos indígenas também fica órfão. Covid-19 maldito.

 

Obede Maricaua, registrou:

 

Minhas condolências aos familiares do Sr.Lucio Flores q nos deixou essa madrugada, grande profissional do controle social da saúde indígena q tive a oportunidade de conhecer, mais um dos nossos parentes que se foi e que Deus lhe receba no paraíso eterno.

Guilherme Felipe Valério, 93

Terena

Guilherme Felipe Valério, 93 anos, liderança indígena do povo Terena, uma das uma das maiores populações indígenas do Brasil. Falante da língua Aruak, Guilherme morava na aldeia Jaguapiru, no município sul-matogrossense de Dourados, desde1961.

Guilherme, que sempre participou de diversos movimentos de lutas dos povos indígenas, foi liderança respeitada em todo país. Importante defensor da educação, era ela a pessoa que reunia a comunidade e contava histórias da tradição. Em entrevista ao Dourados Agora, em 2015, ele lamenta e também nos deixa um apelo: “Nossa história está desaparecendo, se modificando. Tenho sobrinhos que moram em São Paulo, casados com brancos, e quase nem falam mais a língua terena”, reforçando a importância de manter viva a língua materna.

Pai de nove filhos e marido de Maurícia Mariano, contraiu o novo Coronavírus junto de sua esposa e outros três filhos. Morreu no dia 21 de agosto de 2020 e pode ser sepultado no cemitério da Terra Indígena.

 

Fórum permanente de cultura de Dourados (MS), registrou:

 


“É com muita tristeza que o Fórum permanente de cultura de Dourados compartilha a notícia do falecimento de Guilherme Felipe Valério, liderança indígena terena e Maurícia Mariano, sua esposa, vítimas do Covid-19. Ambos residiam na reserva indígena Jaguapiru de Dourados MS. Guilherme Felipe Valério faleceu no dia 21/08 aos 93 anos e Maurícia Mariano, faleceu no dia 22/08, aos 86 anos.

O Fórum permanente de cultura se solidariza com os familiares e com a comunidade de Jaguapiru pela perda irreparável para os povos indígenas do Mato Grosso do Sul.”

 

Carlene Rodrigues, registrou:

 

“Não tenho palavras para agradecer a sua bondade dia após dia, nos ensinando e sendo exemplo de pessoa com o coração enorme cheio do amor e sabedoria de Deus, desde a minha infância presenciei os teus ensinamentos sempre dizendo que Jesus está voltando, que temos que estar preparados para o lar celestial e agora, não vamos mais ouví-lo contar suas histórias reais o que passou para levar a palavra do Senhor, que se manteve firme, que deixou a sua terra, seu povo Terena e veio morar em um barraco no meio da mata e onças para falar do amor de Deus a nós, indígenas Guarani Kaiowá e Guarani Ñandeva.

Seu Guilherme Felipe Valério deixou o seu legado e muitos o ouviram, plantou a sementinha em nossos corações que possamos cultivá-la para estarmos todos juntos com ele, porque um dia iremos também! Que o espírito santo de Deus nos conforte e permaneça com cada um de nós que o conhecemos e tivemos o privilégio em ouvirmos o servo do Senhor!

Sentiremos muitas saudades de suas histórias, brincadeiras, de suas orações que sempre no final finalizavam com um amém firme e forte! seus cânticos, conselhos, puxões de orelha, nos alertando sempre sobre tudo, tudo havia de ser perfeito, pois dizia: – somos soldados de Cristo! Vamos obedecer o nosso comandante! E, a sua maior preocupação era a chegada do natal, os preparativos dos ensaios do coral, ensaios da peça do teatro, ensaios das crianças para as apresentações. Sentiremos muitas saudades do senhor em tudo, seus cumprimentos a todos na igreja em guarani “mbaeixapa”, em inglês “good morning”, em Terena “unaiti” e no final de cada culto sempre agradecia a nós indígenas kaiowá-guarani, falando em guarani: “Atimã Porã, Ñanderajá tae’nde rovasá”! Que quer dizer: “Muito obrigado, Deus te abençoe”!

Pois eu digo:
Atimã porã! Por tudo que tem nos ensinado, sabemos que estás nos braços do Pai.”

 

FONTES

Foto em Destaque: Vídeo da Prefeitura de Dourados nos 80 anos da cidade.
Fotos Galeria: Prefeitura de Dourados; Jornal o Progresso; Goretti Mattoso; Homero Torres; Ronildo Jorge Valério; “A origem do povo Terena”, mito contado pelo seu Guilherme, retirado do site do LABHEI; Ronildo Jorge Valério; Ronildo Jorge Valério; Página do Facebook Guateka Marçal de Souza; Carlene Rodrigues; Página do Facebook Beleza Indígena de Dourados; Ronildo Jorge Valério; Carlene Rodrigues; Aguilera de Souza; Aguilera de Souza; Aguilera de Souza.

Dourados Agora. Disponível em: https://www.douradosagora.com.br/noticias/dourados/lideranca-indigena-guilherme-morre-aos-93-anos-com-coronavirus. Acesso em 17 de outubro de 2020.

Fórum permanente de cultura de Dourados (MS)

https://www.facebook.com/fpcdms/photos/a.1421653724819365/2670601029924622

O Progresso
https://www.progresso.com.br/variedades/pets/educacao-e-o-futuro-dos-indios-diz-terena-radicado-em-dourados/97398/

https://www.progresso.com.br/variedades/bebes-e-criancas/poesia/289368/

Aguilera de Souza
https://bityli.com/k9h6r 
https://bityli.com/Z4aeU
https://bityli.com/n3YAL

Guateka Marçal de Souza
https://www.facebook.com/photo?fbid=1435834796605273&set=a.444978092357620 

Ronildo Felipe Valério

https://bityli.com/On7Xf

https://bityli.com/Kjw4T

https://bityli.com/Fq0SC

Beleza Indígena de Dourados
https://bityli.com/VNqtn

Carlene Rodrigues
https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=2683110568613164&id=100007427415931

 

Colaboração: Érica Dumont / Enfermagem e FIEI – FaE, UFMG – Belo Horizonte/MG.

 

Benedito Reginaldo Filho, 94

Terena

Seu Benedito Reginaldo Filho é mais um Terena vítima fatal da Covid-19. Seu filho Ageu Reginaldo relata que o pai esteve internado por dois dias no Hospital Regional de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. Com a saúde debilitada pela infecção pelo novo coronavírus, não resistiu e faleceu aos 94 anos, no dia 3 de agosto de 2020. Seu Benedito Reginaldo nasceu em 1926 e era viúvo há pelo menos três décadas. Sua esposa deixou seis filhos desse matrimônio. Dos seis – quatro homens e duas mulheres –, quatro já haviam falecido ao longo do tempo, em diferentes momentos, após a partida da mãe.

Foram os dois filhos restantes, Ageu Reginaldo e Arão Reginaldo, que receberam a triste notícia da perda do pai para a Covid-19. Segundo Ageu, seu Benedito foi encaminhado para o hospital e, apesar de a internação não ter envolvido tantas burocracias, houve um grande descaso por parte da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) na prestação de apoio e auxílio ao povo Terena neste momento tão complexo e delicado da pandemia.

Seu Benedito foi um grande líder da família e um dos protagonistas na aceitação da evangelização e da implantação de igrejas evangélicas entre o povo Terena, motivo pelo qual enfrentou oposições internas. Promoveu a Igreja Evangélica da Aldeia Água Azul, fundada em 1928, primeira igreja na Terra Indígena Buriti. Essa TI está em uma região marcada por intensos conflitos fundiários com fazendeiros; no centro das disputas entre povos indígenas e ruralistas no Mato Grosso do Sul. O Estado brasileiro tem sido moroso na conclusão de seu reconhecimento formal: os conflitos chegaram ao ápice em 2013, com o assassinato de uma importante liderança dos Terena pela Polícia Federal, durante a reintegração de posse aos indígenas da fazenda Buriti. Já se vai uma década desde a publicação da sua Portaria Declaratória pelo Ministério da Justiça, reconhecendo a tradicionalidade da área, e dezesseis anos desde o relatório de identificação da FUNAI. A TI Buriti ainda não foi homologada.

Graziele Acçolini, etnóloga especialista na temática do povo Terena, registrou em um artigo que as religiões cristãs são predominantes na região. Sobretudo a religião protestante, em vertente pentecostal, possui importância notável no universo simbólico e religioso dos Terena, e se tornou elemento integrante daquela sociedade.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e estatística (IBGE), o estado do Mato Grosso do Sul abriga a segunda maior população indígenas do país. O site do Instituto Sociambiental (ISA) afirma que a população Terena é bastante numerosa:

“Com uma população estimada em 16 mil pessoas em 2001, os Terena, povo de língua Aruák, vivem atualmente em um território descontínuo, fragmentado em pequenas ‘ilhas’ cercadas por fazendas e espalhadas por sete municípios sul-matogrossenses: Miranda, Aquidauana, Anastácio, Dois Irmãos do Buriti, Sidrolândia, Nioaque e Rochedo. Também há famílias terena vivendo em Porto Murtinho (na TI Kadiweu), Dourados (TI Guarani) e no estado de São Paulo (TI Araribá). […] Os Terena, por contarem com uma população bastante numerosa e manterem um contato intenso com a população regional, são o povo indígena cuja presença no estado se revela de forma mais explícita, seja através das mulheres vendedoras nas ruas de Campo Grande ou das legiões de cortadores de cana-de-açúcar que periodicamente se deslocam às destilarias para changa, o trabalho temporário nas fazendas e usinas de açúcar e álcool.”

 

Ageu Reginaldo registrou um histórico em memória do legado de seu pai:

 

Queria fazer um pequeno relato da história do meu pai, Benedito Reginaldo Filho. Bom, esse nome “Reginaldo Filho”, foi uma herança do saudoso vovô Benedito Reginaldo, um tronco da família Reginaldo, que é uma família muito grande aqui na minha região. O meu pai desde pequeno, desde a infância, conheceu a Sagrada Escritura através do meu saudoso avô. De lá pra cá, meu pai veio seguindo esse caminho como cristão. Sempre foi uma pessoa muito humilde e simples. Não teve educação formal, mas sabia assinar o próprio nome.

Desde cedo percebia no meu pai um homem perseverante, que acreditava. Cheio de muita fé. Todas as coisas que ele fazia eram fundamentadas na fé em Deus: “Vamos orar?”, essa era uma frase dele. A oração era como chave da comunidade, como base de viver em sociedade. Ele sempre demonstrou ser um exemplo de vida, tanto na vida social como na espiritual. Um aprendizado que meu pai me deixou é que a nossa vida tem que ser valorizada. A nossa vida de luta. Meu pai foi um homem batalhador na vida espiritual e também na comunidade.

Mesmo já bem idoso, aos 94 anos, já fragilizado pela idade, demonstrava muita firmeza, fé. Acreditava em Deus conosco. Estava sempre nos motivando e não deixando a gente cair em desânimo. E são palavras que ficam na nossa memória. Sempre me espelhava nele, como um mestre, um companheiro, um amigo, um guerreiro… como o pai que era. Uma enciclopédia que foi embora de mim, de nossa família e comunidade. Um livro vivo da família.

Fazer homenagem pra ele é lembrar que meu pai foi esse fundador do evangelho, fundamentado também no trabalho. Foi uma grande perda pro povo Terena aqui da região. Um grande líder, um grande guerreiro. E o que posso fazer agora é cumprir o papel de orientar os meus filhos, as gerações que vêm aí, que são os netos, o fruto da geração de meu pai, seu Benedito Reginaldo Filho.

Que todos os povos indígenas, não só os Terena, os indígenas do nosso país, sejam valorizados através das memórias que construímos e guardamos dos nossos pais. Esse é um importante trabalho a ser feito para valorização daquilo que guardamos dos nossos ancestrais.

Nas redes sociais, Ageu Reginaldo declarou sobre a perda do pai:

Com muita dor no coração, meu herói, meu pai. Meu companheiro, meu mestre na vida secular e, principalmente, na vida espiritual. Partiu deste mundo. Descansa em paz, meu herói.

“Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé”.

Quero agradecer a todos os irmãos e amigos que me deram palavras de conforto neste momento de dor – estou consolado pelo Espírito Santo – pois sei que muitos irmãos estão orando a favor da minha família. Para o meu pai, Benedito Reginaldo filho, que descansou e está no lar eterno. Que Deus possa abençoar a cada um de vocês meus irmãos e amigos. ITUKO’OVITI huvo’oxovi.

 

 Fernando Souza, sobrinho de seu Benedito, sobre a perda:

 

Meus sentimentos a toda a sua família, Ageu. O tio cumpriu a sua missão nesta terra. Sei que a saudade será muita, que o Espírito Santo Consolador seja contigo e os demais irmãos e parentes.

 

Reginaldo Terena, neto de seu Benedito, declarou:

 

Mais uma vítima da Covid. Descanse em paz, vô Bilu. Benedito Reginaldo, grande servo de Deus. “Combati um bom combati acabei a carreira guardei a fé.”

Família Reginaldo, em luto.

 

Lisio, amigo da família, registrou:


Ageu e Arão, somente Itukooviti pode consolá-los neste momento de dor. Meus sentimentos.

 

Elis Amaral, neta de seu Benedito, declarou:


Nosso vovô, Benedito Reginaldo, terminou a carreira aqui na terra e agora descansa nos braços do Pai! Nosso abraço carinhoso ao Ageu Reginaldo, Arão Reginaldo e toda a família. Deus está no controle e tem o conforto nesse momento de dor.

Liderança indígena denuncia o descaso do Governo Federal com a saúde indígena entre os povos Terena (MS).

FONTES

Foto em Destaque: Acervo Pessoal da família de Benedito Reginaldo, cedido por Ageu Reginaldo.

Fotos na Galeria: Acervo Pessoal da família de Benedito Reginaldo, cedido por Ageu Reginaldo.

 

Acçolini, Graziele. Xamanismo E Protestantismo Entre Os Terena: Contemporaneidades”.In: Espaço Ameríndio, Porto Alegre, v. 6, n. 1, p. 24-47, jan./jun. 2012. Disponível em:
https://seer.ufrgs.br/EspacoAmerindio/article/view/26916/18779

ISA- Instituto Socioambiental. Povos Indígenas do Brasil (PIB).
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Terena, acesso em 05/08/2020.

BRASIL, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os indígenas no censo demográfico 2010. Primeiras considerações com base no quesito cor ou raça. Disponível em https://indigenas.ibge.gov.br/images/indigenas/estudos/indigena_censo2010.pdf     acessado em 05/08/2020 

Reportagem de Racismo Ambiental. STJ mantém terra indígena Buriti, onde foi morto Oziel Terena, anulada por marco temporal.

https://racismoambiental.net.br/2018/03/13/stj-mantem-terra-indigena-buriti-onde-foi-morto-oziel-terena-anulada-por-marco-temporal/ acessado em 05/08/2020.

Atanazio Cabreira, 67

Terena

Biografia por Bianca Cegati Ozuna* – Jornalista//SOS Imprensa


A casa de “seu” Tanazinho, frequentemente é ponto de referência para quem explica algum endereço na aldeia Jaguapiru. Homem de fácil comunicação, respeitado, mas também muito brincalhão, o que o tornou um exemplo para os mais jovens da região. Pai de 12 filhos e avô de 46 netos, foi capitão da aldeia em outras épocas e depois se tornou pastor de uma igreja evangélica, da qual era presidente. Ainda assim, e, mesmo aposentado, encontrava tempo para trabalhar com o conserto de carros. Com orgulho, era mecânico. 

A breve biografia, que pouco – ou quase nada – foi contada pela imprensa local, é de Atanazio Cabreira, de 67 anos, morador da aldeia Jaguapiru, na Reserva Indígena Federal de Dourados, estado de Mato Grosso do Sul. Nas matérias sobre sua morte, “seu” Tanazinho, como era conhecido, foi retratado apenas pelo anônimo conjunto gênero-idade-numeral ordinal: homem, 67 anos, segunda vítima da covid-19 na Reserva. Foi necessário buscar em quatro sites locais de notícias para encontrar seu nome e qualquer outra informação não emitida em nota.
(…)

 “Uma referência para a vida toda, pois era trabalhador, honesto e muito querido por todos, realmente especial, sempre calmo e aberto ao diálogo. Me lembro de tantas coisas ótimas com ele, como quando eu era criança e andávamos de trator! Ele e uma criançada! Íamos buscar pasto para os animais. Era só alegria! E faz tanto tempo, eu tinha sete anos, mas nunca me esqueço”.

As recordações são de sua neta, a auxiliar em saúde bucal Edivania Cepre Cabreira, de 30 anos. Acometido pelas complicações da contaminação pelo novo coronavírus, o terena faleceu no Hospital Evangélico, em Dourados, no dia 26 de junho, após 21 dias de internação. (…)

(…) Quando, então, a notícia ultrapassa a zona urbana das cidades e tem foco nas comunidades marginalizadas, bastam tabelas cheias de números e porcentagens saídas de alguma secretaria para narrar essas vidas. E, assim, mesmo que inconscientemente, o jornalismo local, o que mais facilmente cai “na boca do povo”, comete o erro histórico de não mais contar histórias, principalmente quando se trata das trajetórias de populações esquecidas pelo poder público, como é o caso dos indígenas do Sul de Mato Grosso do Sul.

Em Dourados, segunda maior cidade do Estado, e a que comporta a mais populosa reserva indígena do Brasil, a população das aldeias sobrevive sem rostos. São 18 mil pessoas literalmente à margem da sociedade douradense, se somados os moradores das aldeias que compõem a Reserva Federal – Jaguapiru e Bororó – aos que vivem na aldeia Panambizinho e nas comunidades acampadas em terras retomadas.

Leia o texto completo: “Na Reserva Indígena Mais Populosa Do País, A Pandemia Não Tem Rosto, Apenas Números.”

 

FONTES

Foto em Destaque: Acervo pessoal de Edivânia Cabreira
Fotos da Galeria: Acervo pessoal de Edivânia Cabreira

 

Na reserva indígena mais populosa do País, a pandemia não tem rosto, apenas números